Mostrando postagens com marcador Topónimo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Topónimo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Bom Dia Alentejo, de uma terra de Monforte, Topónimo de Monforte, a montanha alentejana é de alto e forte

 
 
Está fundada esta vila sobre um monte alto e de difícil acesso principalmente do lado do norte, e desta sua posição tirou o nome de Monforte, abreviatura de Monte forte.
O autor da Corografia Portuguesa descreve a configuração da vila do modo seguinte: “É semelhante a uma galé; na proa está a torre de menagem do castelo, com mais de três torres e quatro baluartes, cisterna, cava, e cerca bem fortificada; a proa é a torre em que está o relógio, para a parte sul, ficando toda ela cercada de muros com quatro portas.
(De As Cidades e Villas da Monarchia Portugueza que têm Brasões d’Armas – por I. Vilhena Barbosa – Vol. II – 1860 – Pág. 74).

É de antiga origem – porém, a época da sua fundação é ignorada, e bem assim o nome de seu fundador. É a vila cercada de muralhas, e tem o seu castelo, torre de menagem, e mais quatro torres. A povoação assenta em um alto, segundo o uso das antigas, sempre que queriam fortificar qualquer povoação.
(Do Arquivo Histórico de Portugal – Tomo II – (1890) – Pág. 179).

O nome desta vila está em condições idênticas às de Mon-Beja, isto é, resultou do encurtamento da expressão Monte Forte, o que parece indicar um passado heróico com cercos, combates ou aventuras guerreiras”.
(Dos Topónimos e Gentílicos,  de Xavier Fernandes, Vol. II - (1944) – Pág. (337).

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Bom Dia Alentejo, Ourique, Topónimo de Ourique, a uma viagem ao centro


É uma forma moçárabe do visigodo Auricus. David Lopes escreveu:
OURIQUE, provavelmente, é o nome germânico Auricus arabizado, e por isso imobilizado, nessa forma”. Noutros topónimos portugueses – Origo, Oriz, Ourigo, Ouril, Ourilhe e Ourilho – parece haver um elemento inicial proveniente duma raiz comum, o que permitirá aproximar morfologicamente todos esses nomes.
Dos Topónimos e Gentílicos, de Xavier Fernandes, Vol. II (1944 – Pág.. 345

Segundo se vê nos Vestígios de Língua Arábica, obra interessante de Fr. João de Sousa, vem do árabe Orique.
Pinho Leal, que sabia tanto de árabe como eu, de depois de citar a Évora Gloriosa, que dá como etimologia de OURIQUE o ouro proveniente das minas auríferas que abundavam (?) no Campo d`Ourique diz que OURIQUE vem de Orik, nome que os árabes deram ao dito campo depois da batalha. – que Orik é palavra árabe e significa infortúnio, adversidade, desgraça, etc.
Desbancou a sábio arabista Sousa e conclui dizendo – “não se sabe se o nome que Ourique teve antes da grande batalha”.
Herculano também diz, ou parece dizer, que os árabes denominavam o dito campo Orik.
Na minha opinião OURIQUE é vocábulo godo, não árabe, e vem de Honoriqui ou Honoriquizi, patronímico de Honoricus, í, nome pessoal germânico, na idade média vulgar entre nós, que deu Ourique no Alentejo, em Lisboa, Penela, Formoselha ou Montemor-o-Velho.
Deu também Honorgio, antigo nome pessoal, Origo, aldeia, - Ourigo, nome dum sítio da praia da Foz, - Oriz, nome de várias povoações, e freguesias nossas. – Adrigo, povoação e freguesia do Alto Douro, - e Adourigo, povoação nossa também.
Da Tentativa Etimológica Toponímica, de Pedro Augusto Ferreir, Vol. I (1907) – Pág. 235.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Bom Dia Alentejo, de uma Viana do Alentejo, o Topónimo de Viana do Alentejo, a uma terra dos Galgos

  






Pretendem vários escritores que foram os galos celtas que a fundaram alguns séculos antes do nascimento de Cristo. E acrescentam que, em memória da cidade de Viena sua pátria, lhe deram o mesmo nome.
(De As cidades e Vilas da Monarchia  Portugueza,  que têm brasões d`Armas – por J.  Vilhena Barbosa, Lisboa, 1862 – Vol. III – Pág. 126).

A meia vertente da serra do seu nome, entre azinhais e oliveiras, localiza-se o casario da antiga VIANA DE A PAR DE ALVITO, hoje a vila concelhia de VIANA DO ALENTEJO, incorpada no distrito administrativo de Évora……………
A VIANA acrescentou-se o determinativo DO ALENTEJO, indicativo da respectiva província e que a distingue, na denominação da cidade capital do Alto Minho.
(Dos Topónimos e Gentílicos, de Xavier Fernandes, Vol. II – 1943 – Pág. 391).
 

sábado, 11 de junho de 2016

Bom Dia Alentejo, Montemor-o-Novo, Topónimo de Montemor-o-Novo, o monte era o maior


MONTEMOR-O-NOVO pode orgulhar-se de ser, não apenas uma das mais antigas povoações de Portugal, mas também uma das mais ricas em tradições e títulos de nobreza.
Querem mesmo alguns historiadores que ela se identifique com a << Castrum Milianum >> dos romanos.
Hipótese verdadeira ou errada, o certo é que datam do longínquo ano 93 as primeiras notícias que temos a seu respeito.
Quanto às origens do nome que ostenta, conta-se que, ao mandar D. Sancho I se edificasse naqueles lugares um castelo, lhe perguntaram em qual dos montes se havia de construir, tendo o rei respondido << no monte-mor >> ; e esta frase serviu de baptismo ao povo nascente.
E, como já havia, no Norte, a vila do mesmo nome, para se distinguirem se chamou a uma << Montemor-o-Velho >> e à outra<< MONTEMOR-O-NOVO >>.
(Do Mensário das Casas do Povo – N.º 109 – Pág. 11 (Julho de 1955).

Diz a tradição que o nome da formosa vila teve por origem a resposta dada por D. Sancho I quando lhe perguntaram sobre qual dos três montes determinava que se edificasse o castelo:<< No Montemor >>. É possível que assim fosse, e como outra explicação não há a tal respeito, admitiremos esta.
Do Domingo Ilustrado, Vol. II (1890) – Pág. 187).
 
O nome de Montemor tem origem nos celtas. Contraporíamos << Bem mór>> que os ingleses derivaram dos celtas, << Monte Grande >>, pois, pode bem ter-se substituído o << bem>> por << Monte >>, e, quanto ao << Mor >> tanto dos celtas como dos germanos, nos poderia ter vindo pela excelente situação geográfica.
(DO Montemor-o-Novo Histórico e Monumental por Manuel Claro, inserto na Pág. 402 do Vol. III do Álbum Alentejano).

MONTEMOR é o mesmo que Monte Maior, era o antigo Mons Maior Novus. Foi fundada por D. Sancho I em 1201 sobre as ruínas da antiga Castrum Malianum, de que os romanos falam no ano 93 da nossa era e que a tradição diz ter sido a terra de Santa Quitéria, martirizada no ano 300 antes de Cristo.
(Dos Topónimos e Gentílicos, de Xavier Fernandes, Vol. II – 1944 – Págs. 338-339).

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Bom Dia Alentejo, Campo Maior, Topónimo de Campo Maior, a menina sempre foi a mui Valorosa


A origem de Campo Maior busca-se em tempos remotos.
Diz-se que, havendo por aqueles sítios pequenos lugares, foram mandados três pioneiros (Galvão, Silveira e Mexia) a edificar ou talvez a unir mais a povoação; e separando-se um deles, na direcção de um certo vale a que se chamou Cantos de Baixo, gritou de longe aos companheiros, naturalmente também em andanças de pesquisas:  - <<Para aqui é campo maior!>>
 
Foto: portugalfotografiaaerea.blogspot.com
E justamente ali se construíram as primeiras casas e assim o burgo se denominou Campo Maior, hoje vila de muitos pergaminhos e títulos de trabalho e nobreza, cognominada de Leal e Valorosa pela esforçada e heróica defesa perante o ataque dos franceses invasores de 1811.
Fonte: Do Mensário das Casas do Povo – Ano IX – Dezembro de 1954 – N.º 102 – Pág. 10

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Bom Dia Alentejo, Topónimo, Topónimo de Vendas Novas, a D. João III

 A origem provável e o subsequente desenvolvimento de Vendas Novas, devem-se essencialmente a três acontecimentos que tiveram lugar quase simultaneamente.
O primeiro e segundo acontecimento devem-se essencialmente à criação da Posta Sul, por ordem de D. João III, estabelecendo-se uma estação e uma sede da Posta em Aldeia Galega (o actual Montijo).
De igual modo, com licença do rei, mandou Luís Afonso, Correio-Mor do Reino abrir um caminho de Aldeia Galega a Montemor, que atravessava uma vasta charneca que o rei utilizava para as suas caçadas reais, de maneira a diminuir o percurso e o tempo das viagens. Nesse caminho, o rei mandou construir uma estalagem, no sítio que hoje é Vendas Novas.
 
Foto: historiadalousa.blogspot.com
O terceiro, - assim compadres e minhas comadres - o terceiro acontecimento, ele está ligado à construção, por ordem de D. Teodósio, de duas pousadas, uma em Evoramonte e outra nas Vendas Novas, perto das duas estações, para melhor se deslocar de Lisboa a Vila Viçosa. Terá sido então, a aberta do caminho para a Posta do Sul, através da charneca, em 1526, e a construção de duas estalagens, (a da Mala-Posta, em 1526, e a do Duque D. Teodósio I, em 1930), os três factores determinantes para a origem de Vendas Novas.
Quanto ao nome do povoado terá provavelmente origem nas construções - "Estalagens" ou "Vendas", que por serem de recente construção, eram novas, denominadas pelos viajantes como "as Vendas Novas".
Fonte: cm-vendasnovas.pt

terça-feira, 15 de março de 2016

Bom Dia Alentejo, Topónimo de Almodôvar, a Lenda da Vila Negra, nevoeiro ficou cerrado

 
Os milagres do Senhor Jesus do Calvário eram tantos e tão grandes, que depressa se tornaram conhecidos por todo o país.
Este facto, aguçou e despertou a cobiça dos habitantes de outras localidades, no sentido de quererem roubar a referida santa imagem milagreira.
Despertado o interesse, apareceu a cobiça e logo surgiram os planos de execução.
Certo dia de lindo sol, – há muitos, muitos anos – dirigiram-se a Almodôvar muitos cavaleiros armados de lanças e espadas, para levarem de qualquer maneira a imagem do Senhor Jesus do Calvário.
Quando se aproximavam da vila, operou-se um milagre que ficou na história de Almodôvar e viria a dar-lhe o nome de Vila Negra.
Fez-se noite, de repente! Um nevoeiro muito cerrado, ocultou por completo a vila, não deixando ver nada, nem mesmo um palmo à frente do nariz, como se costuma dizer.

 
Os guerreiros, em vão procuraram a vila e perderam o rumo e viram-se obrigados a bater em retirada, sem poder entrar na Vila, e não puderam levar consigo o Senhor Jesus do Calvário.
Os habitantes, ouvindo o barulho do tropel dos cavalos vieram às janelas a ver o que se passava, mas o denso nevoeiro, nada deixou ver.
No dia seguinte, quando souberam o que tinha acontecido, atribuíram o milagre ao Cristo Crucificado da sua devoção e fizeram uma grande procissão com a imagem, pelas ruas da vila, engalanadas e cheias de flores.
Ainda hoje, esta imagem é muito venerada pelo povo encontrando-se no mesmo local, muito bem conservada. Todas as noites se encontram nesta pequena capelinha, muitas velas acesas pelos fiéis devotos, que receberam benefícios espirituais ou materiais, por intermédio do referido Senhor Jesus.
Por esta razão, a do denso nevoeiro, diz a lenda, passou Almodôvar a chamar-se de Vila Negra.
Este acontecimento foi tão importante que a População nunca mais o esqueceu, e ainda hoje, alguns mais idosos, se referem a Almodôvar como a “Vila Negra”...
Fonte: cavaleirosvn.net

quinta-feira, 10 de março de 2016

Bom Dia Alentejo, Odemira, A Lenda de Odemira, Topónimo de Odemira

 
 Consta-se – compadres e minhas comadres -, que se consta, há muitos anos viveu em Odemira, na altura não se chamava Odemira, portanto, era uma terra habitada por árabes e que a rainha se chamava... aliás o rei chamava-se Ode. 
Um dia pois que sabeis, ao serem invadidos pelos cristãos, os cruzados na altura, portanto, subiram o rio Mira e a princesa, ao ver os barcos a subir o rio, gritou do alto do seu palácio: “ Ode, Ode, mira!!!”
Portanto, compadres que é isso, segundo se consta a lenda, daí vem o nome de Odemira, que a rainha ao chamar pelo rei e ao apontar para mira, para ele olhar para o rio, ao subirem os cristãos, portanto ficou o nome de Odemira!
Mas compadres e minhas comadres, se é verdade ou a mentira, eu pois vos digo que eu não sei.
Fonte Biblio AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas), 2006

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Bom Dia Alentejo, Serpa, Topónimo de Serpa, a Chebria

 

Da Tradição – Notas Históricas acerca de Serpa, do Conde de Ficalho (1900):
É Sheberina ou Cheberina identifica-se satisfatoriamente com Serpa. A tomada de Serpa, segundo os documentos cristãos, concorda plenamente com a Chebrina, segundo os árabes; e os dois nomes não são tão diversos como à primeira vista poderia parecer.
A palavra Serpa, adoptada pelo árabes dava naturalmente Cherba: primeiro porque o “s” inicial é frequentes vezes representada pelo “chin”, como em “Chantarem” Santarém, em “Chant-iacub” de Sant’Iago; segundo, porque o “p” medial falta no alfabeto árabe e é substituído pelo “b”. De Cherba teríamos Chebra por uma simples transposição de consoantes, habitual entre os mouros pouco letrados …
Nos tempos antigos, a palavra tomava muitas vezes entre cristãos a forma Serpia, que encontramos, por exemplo na inscrição do Marmeral do princípio do século XVL e em vários documentos anteriores; e esta forma daria em árabe – Chebria…
Mes compadres e minhas comadres, no presente, é apenas Indicado as semelhanças, deixando aos arabistas, pois que certamente, o cuidado de resolverem cientificamente este ponto.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Bom Dia Alentejo, Montargil, Topónimo de Montargil, a terra dos três forais


Sobre a origem do nome Montargil existem várias versões todas elas credíveis:
 
a)      Montargis, pelo facto do Alentejo ter sido povoado pelos nossos primeiros reis, que para o efeito deram muitas terras aos cruzados que passavam pelo nosso país. Existindo em França uma cidade chamada Montargis, e sendo alguns desses Cruzados naturais desta região francesa é de presumir que um desses aventureiros fosse de Montargis e por ser senhor desta povoação ou simplesmente morador dela, impusesse o nome a esta vila. Esta versão é credível, uma vez que nas proximidades desta vila, em Montalvo do sor estabeleceu-se uma colónia de francos.
b)      Monte Argila , visto a constituição geológica do terreno em que assenta ser de barro.
c)      Monte Argel, significando Monte do Infeliz, porque Argel significava infeliz. (pouco provável)

Hipótese A
O nome de Montargil conduz a fundação da vila não ao tempo de D. Dinis, mas ao tempo de D. Sancho I I. Este rei faz a doação de Montalvo do Sor aos francos, anterior à fundação enquanto localidade ( 1223 -1245). Esta doação surge na sequência da preciosa ajuda que os cruzados de Montargis haviam dado na reconquista cristã. O objectivo da doação, a julgar pelas outras feitas seria não só recompensar os cruzados como manté-los nas terras doadas defendendo esta terra de possíveis ataques mouros, que nesta época eram uma constante.
 
Entrando no domínio da especulação, podemos mesmo admitir que a terra doada por D. Sancho II aos francos iria da zona de Montalvo do Sor até à região mais tarde denominada de Montargil. Sendo esta última a zona mais elevada, era sem dúvida o local indicado para erguer uma castela, local que já tinha sido utilizado por povos anteriores.
Hipótese B
Algo que nos possa intrigar é o facto de desde o século XV o Montargil aparece sempre referido não como Montarguis, mas monte arguil, o que nos leva a aceitar a versão de monte argila.
Montargil viu-lhe ser concedidos três forais: o primeiro em 1277 por D. Dinis, o segundo em 1372 por D. Fernando e o terceiro, já por um rei da segunda dinastia, D. Manuel I em 1518.
Montargil foi sede de concelho, daí terem-lhe sido outorgadas três forais. Esta posição de sede manteve-se até 1836. Nesta data, Montargil sofreu mudanças administrativas. Deixou de pertencer ao Ribatejo, onde pertencia desde a sua fundação. Desmembrada da província ribatejana foi integrada no concelho de Avis, a partir desta data perdeu o estatuto de concelho e passou a freguesia, o qual mantém até hoje. Só mais tarde em 1871 passou a fazer parte do concelho de Ponte de Sor.
Fonte: Pedro Cerîaco, "ebimontargil.drealentejo.pt"

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Bom Dia Alentejo, Alpalhão, Topónimo de Alpalhão, a um Espírito de Deus

 
"Do estudo - Temas Etimológicos - inserto no Boletim de 1976 do C.D.C.R., do já consagrado Toponimista António Augusto Batalha Gouveia, vamos transcrever o que escreveu a respeito de Alpalhão.
"Se o topónimo ALPALHÃO mantém intactos raízes primitivas e tudo parece indicar que sim, então posso adiantar que o mesmo procede das vozes anteriores AR-BAR-UM modificar nas variantes diacrónicas AL-BAl UM, AL-BAL-OL e AL-PAL-ON.
Vou seguidamente examinar cada um dos morfemas inclusos na locução ARBARUN.
A voz AR que por vir do abrandamento de vibrantes se sonorizou, AL, denominava, num remoto estado linguístico, o ESPÍRITO ou a ALMA.
O morfema BAR remonta à voz semítica BA, cuja a aspiração vocálica foi com o advento da escrita notada pelo signo correspondente ao nosso H e daí a grafia BAH.
Este BAH sofreu diversas mutações fonéticas decorrentes da referida aspiração surgindo assim os cognatas BAR, BAL, etc.
Na sua passagem para o indo-europeu a labial sonora B permutou com a surda P, originando deste modo os cognatos PAH (em que o "h" tem aqui o valor fonético notado pelo "êta" (grego) PAR, PAL, etc....
O BAH semítico denominava simultâneamente o PAI divino e o MAR. O vocábulo árabe para "mar" apresenta, no nosso alfabeto, a grafia BAHR.
Caso particularmente interessante é o dos vocábulos portugueses "mar" e "mãe" provirem da mesma raiz indo-europeia MAH significativa de "Grande".
Quer isto dizer que a grafia actual "Pai" com "i" carece de apoio etimológico, porquanto este nome evoluiu paralelamente à voz "MÃE".
Foto: bloggerdalucelinha.blogspot.com 
O morfena Turano indo-europeu UN, que representava a voz original "U" significativa de "Primogénito divino", "Filho de Deus" e "Homem" sofreu várias fonatações fonéticas filhas do génio próprio de cada idioma, passando a soar OM em sânscrito e On nas línguas germânicas. Do OM em sânscrito derivaram os gregos a palavra "OMOS" (o mesmo), espécie que os latinos importaram para com ele denominarem a nossa e (Homo, port. Homem).
Os vedas conservaram a voz Un, como se pode verificar no livro 10-129 do Rig-Veda que verto para português:
"No princípio não existia o ser nem o não ser;
Não havia espaço nem firmamento.
Qual era o seu conteúdo? Onde estava e quem o guardava?
O que era a água profunda, a água sem fundo?
NEM a morte nem a não morte existiam nesses tempos;
Nem sinal distinguia a noite do dia.Encerrado no vazio, o "UN" respirava mutuamente; As trevas envolviam as trevas".
Sendo o BAR o "Pai" ou o "MAR" e UN o primogénito divino gerado pelo "mesmo" resultou daqui a arcaica concepção religiosa, e ainda vigente, de que Deus e o Homem, o Pai e o Filho, eram duas naturezas numa só e que ligados pelo Espírito consubstanciavam as três essências divinas, isto é, tornaram-se ao mesmo tempo no Deus Uno e Trino.
Quando a crença nas divindades marinhas cedeu perante o panteão celeste, a direcção UN confundiu-se com a voz AN, outro cognato de "ESPIRÍTIO" que passou a apelidar o Deus do Céu assírio-babiliónico.
Os gregos formaram a palavra "homem" prospondo a voz AN a raíz asiânica THUR (um dos cognatos do nome "DEUS" : DIUR, DIUSS, DEUS) que corrompida por metátese se transformou em THROS e daí a dupla direcção ANTHROS e ANDROS (Espírito de Deus).
Foto: edeilzainacio.blogspot.com
A voz cognata de ANTHROS, ANTHOS, que primitivamente tinha o mesmo significado, foi empregado pelos gregos para denominar a "FLORA"entrando o onomástico lusitano sob as formas equivalentes ANDO e ENDO.
Esta última foi anteposta ao tema latino Bélico ou Vélico (guerreiro) passando a apelidar o deus lusitano Endobélico ou Endovélico (Espírito de Deus guerreiro) corresponde ao Ares Grego, ao Marte romano e ao português S. Jorge.
Endobélico ou Endovélico era, entre nós, um deus tópico, isto é, o seu culto circunscrevia-se a uma área geográfica que tinha ALPALHÃO no seu aro. Situava-se o seu santuário no Monte de S: Miguel da Mota, perto de Alandroal.
Este último topónimo é revelador do "ubi" de Endobélico, dado que Alandroal decompõe-se nas vozes AL-ANDRO-AL, sendo este o sufixo designativo de "Terra " "Campo" "Área" "Recinto", etc., logo Alandroal encerra a significação primitiva de "Terra de Espírito de Deus Guerreiro", Endovélico, tal como Jeová era o "Senhor do Exército Lusitano".
Resumindo tudo quanto venho de dizer, temos que o toponómio ALPALHÃO procede de voz anterior, a qual corresponde a significação etimológica do "ESPIRITO DO PAI E FILHO DIVINO", ou o que é o mesmo "ESPÍRITO DE DEUS".
Fonte: Alexandre de Carvalho Costa, Nisa e suas Freguesias Rurais
 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Bom Dia Alentejo, a Sobral da Adiça, Topónimo de Sobral da Adiça, o ouro que estava na serra

O topónimo de Sobral da Adiça que mes compadres e minhas comadres, no concelho de Moura, ele deveu-se a uma grande mina de ouro que houve na Serra da Adiça, da qual ainda se podem observar evidentes provas das suas galerias subterrâneas.
É muito provável que os primeiros exploradores desta mina fossem os Fenícios, depois os Romanos e que por fim os Árabes. Não consta ter havido trabalhos de mineralização desde o tempo dos Godos.
Foto: http://aloprando.com
Através de diversos documentos relativos a esta terra, Sobral era chamada de S. Pedro da Adiça. Que depois de uma profanação, a profanação da igreja de S. Pedro que ficava fora da aldeia, dá-se a mobilidade da sede da igreja para uma zona possivelmente rodeada por grandes sobreiros e também a orientação de culto passou a ser dirigida a Nossa Senhora do Ó.
 
A deserção de moradores destes montes para o local de Sobral da Adiça, minhas comadres e mes compadres, deveu-se certamente às inúmeras incursões dos castelhanos e a uma fertilidade das terras do actual aglomerado populacional.
E lá está ela. Dizem que está maravilhosa, esta menina…

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Bom Dia Alentejo, Vila Viçosa, Topónimo de Vila Viçosa, a uma formosa

Reclina-se Vila Viçosa do Alentejo em uma planície ao sopé das vertentes orientais da pequena serra de Borba, onde uns cômoros lhe formam dois pequenos vales, pelos quais serpeiam, na estação das chuvas, outros tantos ribeirinhos, correndo para o levante do sol para se unirem lá e se confundirem mais adiante na ribeira de Borba.
Foi ao vale do sul que os portugueses chamaram VAL VIÇOSO, no tempo das conquistas aos mouros no Alentejo; e daí veio à moderna povoação o nome de VILA VIÇOSA, quando recebeu o foral do concelho português.
(…)
VILA VIÇOSA é chamada também Calípole e os moradores dizem-se calipolenses. Este nome foi-lhe atribuído por André de Resende nas Antiguidades da Lusitânia, escritas em latim, por não saber o seu autor como verter melhor para a língua dos romanos o termo VILA VIÇOSA, do que adoptando aquele nome, já dado no idioma grego a não menos de três povoações antigas.
Vertido à letra, Calípole quer dizer: cidade, povoação formosa.
(Do Compêndio de Notícias de Vila Viçosa – concelho da Província do Alentejo e Reino de Portugal – pelo padre Joaquim José da Rocha Espanca – Prior de S. Bartolomeu da mesma vila – 1892 – Págs. 10-11-13).
E logo, compadres e minhas comadres, e logo, (Dos Topónimos e Gentílicos, de Xavier Fernandes, Vol. II – 1944 – Pág. 399), o compadre a dizer “Vila Viçosa parece querer exprimir a ideia de “terra de frescura, de mimo, de vigor de vegetação, de exuberância de vida”, e tudo isto tem a histórica e linda vila alentejana…

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Bom Dia Alentejo, Cano, topónimo de Cano, a no concelho de Sousel

 

Ora Pinho Leal, compadres e minhas comadres, ora compadre Pinho Leal, no seu “Portugal Antigo e Moderno”,  em relação a este topónimo da freguesia: “Situada em uma fresca e aprazível planície alameda, chama-se Cano pelos muitos canos de água que por ela correm (outros dizem compadres, por um célebre cano que aqui havia em épocas remotas).
Pinho Leal, na obra citada, faz referência a duas grandes fontes que existiam no Cano no séc. XIX. Uma era a Fonte dos Olhos. A outra, compadres e minhas comadres, era a Fonte Grande.
Mas falamos na Fonte Grande…
A Fonte Grande, era um grande depósito de água, da qual saía um “granda cano” (assim mesmo o descreve o autor), que provavelmente terá estado no nome da freguesia, ou se vos dirá, da graciosa terra.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Bom Dia Alentejo, Moura, A Lenda da Moura de Salúpia, a toponómio de Moura

 
A Lua elevava-se das bandas do Levante, pondo um orvalho de prata nas campinas frescas e perfumadas que circundavam a pequena povoação de Arucci-a-Nova.
Numa ponta da vila árabe emergia, com soberana altivez, a formosa torre circular, em cujo minarete flutuava o pavilhão sagrado de Islam.
Sobre as ruínas da antiga fortaleza mourisca que as hostes cristãs de Afonso Henriques haviam feito arrasar, após um combate heróico com os sarracenos, o chefe árabe Buaçou, companheiro de armas de Miramolim Abinussuf, — o agareno audaz e feliz, que aos cristãos tomara parte das suas conquistas em terras alentejanas, no reinado de D. Sancho I, — mandara construir e fortificar poderosamente o novo castelo e cedera-o como dote a sua filha Salúquia, que aí governava como «alcaidessa».
Salúquia era uma moura formosa, sonhadora e supersticiosa como uma boa crente do Alcorão.
Fátima e Zuleima, as dilectas companheiras, olhavam com fraternal ternura o perfil esbelto de Salúquia, a querida princesa — irmã, pródiga de sinceridade e de carinhos para com todos, que jamais sentiram a altivez sobranceira da senhora a recordar-lhes a humilhante condição de escravos.
Por isso Salúquia era adorada na sua pequena corte. Todas as tardes, mal o sol se escondia para as bandas do mar, a bela moura e a sua comitiva subiam ao minarete, e ali, então, estendendo a vista até ao círculo escuro do horizonte de serranias, passavam largo tempo desfiando lendas de guerra e de amor até à hora solene da oração a Allah, que os lábios murmuravam numa prece de fé vinda do íntimo, com tal elevação e misticismo, como se fora a própria alma a evolar-se da súplica religiosa.
Cortando o silêncio, Fátima, a moura dos olhos azuis, disse:
«Salúquia, quando o luar tiver beijado as ondas do mar e o sol abrir de novo as portas do Oriente, o teu noivo estará entre nós...
 — Que Allah o permita, Fátima!
 — E porque estás tão triste? — perguntou Zuleima.
 — Por muito o amar! — replicou Salúquia. E por muito temer! — acrescentou numa acentuação de vaga e sombria tristeza.
 — Allah protege-o, e os cristãos estão muito longe! — exclamou Fátima, numa afirmação cheia de confiança.
E Zuleima, a linda morena, filha de Granada, estendendo os braços na direcção do Oriente, procurou indicar um ponto vago e impreciso.
 — É por ali o caminho… conheço-o bem. Por ele me trouxe teu pai, como cativa.
 Salúquia elevou-se e, com ansiedade, fitou o olhar no sítio que Zuleima queria determinar, e dos seus olhos negros parecia sair uma cintilação de esperança, que a crença misteriosa de um estranho fatalismo não conseguiu amortecer nos primeiros instantes.
No entanto, Salúquia pensava por vezes que era infantil e injustificado aquele receio pela sorte do seu noivo, o príncipe mouro Bráfama, alcaide e senhor do castelo de Arucci-Vetus (hoje a vila espanhola de Aroche).
Bráfama enamorara-se perdidamente da filha de Buaçou e obtivera a permissão para os esponsais.
Salúquia correspondia-lhe com paixão cheia de fidelidade, e uma aurora de amor, que despertava nas duas almas, crescia em apoteose de intenso desejo e suprema dedicação. Era esta a sua última noite de virgem. A madrugada, que dentro de algumas horas iria despontar, traria envolta numa poeira de oiro, a finura adorada de Bráfama, o prometido esposo, o estremecido ídolo da sua imensa religião de mulher enamorada a florir na primavera dos vinte anos.
A brisa nocturna vinha rescendendo ao perfume suave das laranjeiras toucadas de branco e dos roseirais em flor, como num delicioso consórcio aromático, que tornava a atmosfera tépida e lânguida daquela noite de estio num devaneio sensual, que embalava o coração e embriagava os sentidos.
Salúquia, de olhos semi-cerrados, abandonava-se à lúbrica visão que o seu candente amor formava de estranhas e caprichosas alucinações. Parecia que a figura musculosa e varonil de Bráfama a estreitava docemente junto ao peito, encantando-a numa música de promessas venturosas, que a alma ingénua acolhia alvoroçada e receosa, Este prazer íntimo, que ela gozava em silêncio, era dum perturbador enervamento, calmo e absorvente.
Apenas, de espaço a espaço, rápidos clarões de sinistra superstição fulguravam, como centelhas dum rubro e sangrento colorido num céu tranquilo de serena esperança. Nesses momentos, o coração apertava-se-lhe numa contracção de dor, o rosto afogueava-se-lhe num rubro de ansiedade, e esta impressão torturante, duma amargura horrível, vinha a cristalizar-se nalgumas lágrimas, que tombaram dos olhos formosíssimos numa cintilação brilhante.
Fátima, confrangida do sofrimento injustificado de Salúquia, e para a distrair daqueles temores vagos, principiou uma narrativa de aventuras, uma das muitas fantasias infantis que a sua alma em criança recolhera como herança lendária da velha escrava Zara, que havia anos Allah chamara a si, talvez para ouvir os contos lindos da velha moura.
Dez léguas separavam Arucci-Vetus, a terra do noivo de Salúquia, da povoação onde esta governava como «alcaidessa», distância que se percorria no espaço duma noite, de mais a mais quando o acicate do desejo havia de esporear o cavalo de Bráfama, numa galopada alegre para a felicidade.
Ao cair da tarde, Bráfama e os seus deixaram Arucci-Vetus e puseram-se a caminho, numa caravana resplandecente de luxo e venturosa galhardia. Era uma cavalgada brilhante, em que os raios do sol, na agonia daquela tarde, punham fulgurações de luz sangrenta no reflexo rútilo das pedrarias dos turbantes dos cavaleiros e dos arreios riquíssimos dos corcéis.
Bráfama, à frente, o manto de puríssima alvura sobre o arcaboiço forte e esbelto, levava frequentes vezes a mão sobre os olhos, procurando ver através dos raios do sol que se escondia na direcção do mar a torre amada de Salúquia, quando alguma elevação de terreno mais favorável, lhe permitisse divisar a sombra minúscula do castelo, que a alma há muito entrevia antes que os olhos pudessem enxergar. Mas as sombras da noite vieram envolvê-los e, enquanto o globo rubro se escondia sob o dorso das serranias do Ocidente, a lua vinha saudá-los, trazendo-lhes na sua luz as preces e os desejos que Salúquia e as suas damas lhe confiavam, para os deixar cair, como amorosa mensageira, sobre Bráfama e os cavaleiros da comitiva nupcial.
A noite ia avançando, e a caravana, a quem a fadiga de um rápido trotar foi amortecendo lentamente o ardor festivo, caminhava silenciosamente, quebrando o eco solitário dos vales com o ruído estrepitoso de um tropel apressado, cortado de vez em quando pelo relinchar alegre dos cavalos, nos quais a espuma do cansaço punha manchas alvas sobre a cor negra do pêlo aveludado.
Das bandas do Levante elevava-se já uma aragem ligeira e fria: as estrelas iam esmaecendo no fulgor, e a porteira do Oriente surgia em toda a lucilante beleza, deixando atrás de si um rasto pálido que gradualmente ia enrubescendo e começando a tansformar em cristais doirados as pequenas gotas de orvalho que refrescavam a terra adormecida. Apenas uma légua separava Bráfama de Salúquia.
O cortejo mourisco caminhava agora num vale lindíssimo que despertava risonho e florido aos beijos do sol nascente. Umas colinas impediam ainda a visão querida do castelo da noiva.
Renascera o entusiasmo e a alegria, e a caravana galopava cheia de prazer, colhendo flores das árvores que orlavam o caminho, para as levar, como saudações frescas e coloridas, à corte Salúquia. De súbito, os cavalos deram sinais de inquietação e receio. Relinchavam fortemente e mostravam-se agitados. Bráfarna estacou e a comitiva fez alto. Entreolharam-se todos, surpresos e indecisos. Numa voz rouca de terror, um velho árabe, que seguia ao lado de Bráfama, gritou — além…, e apontava com a mão trémula, uma nuvem de poeira que avançava em turbilhão, deixando entrever armas, que reluziam ao sol, e pavilhões brancos com a cruz da Fé. 
Bráfarna exclamou:
 — São os cristãos!
 — E vêm para nós! — disse um cavaleiro árabe, moço e destemido guerreiro para quem o fragor dos combates tinha encantos e perigos que o embriagava numa epopeia de heroísmos. Desembainhando, num movimento rápido, a lâmina curva e brilhante, exclamou:
 — Vamos a eles!... Allah seja por nós e atirou o cavalo numa correria doida ao encontro da morte.
 Bráfama reconheceu o perigo inevitável. Os cristãos estavam perto. Era um bando superior em número aos cavaleiros sarracenos; tinham além disso, sobre eles, a vantagem de vir aprestados e armados para o combate, enquanto Bráfama e os seus caminhavam para uma festa de núpcias. Era, portanto, a morte certa, fatal, irremediável. Mas um crente de Allah nunca foge, e encara a morte, sempre, frente a frente.
Pálido, um pouco trémulo, os olhos quase velados por uma neblina dolorosa que do coração lhe subia, Bráfama encarou a sua gente e disse-lhe:
 — Irmãos… é a morte! Allah assim o quis. E, tirando do peito uma rosa branca que colhera para oferecer à noiva, beijou-a demoradamente, e ao soltar os lábios daquele misterioso beijo, elevou os olhos turvos de lágrimas para o céu, agora fulgurante de oiro, parecendo-lhe ver no fundo azul um castelo em festa, onde uma figura linda de mulher, branca como a lua e formosa como a estrela da manhã que a sua vista ainda há pouco namorava, estendia para ele languidamente o braço, para receber a rosa em que os seus lábios haviam deposto, como num puro relicário, toda a alma dum imenso e infeliz amor.
Em seguida, voltando-se para a comitiva, disse num tom quase de súplica:
Se alguém se salvar, leve a Salúquia esta flor, e escondeu-a sob o manto, junto ao coração. Depois, num impulso rápido, renasceu o guerreiro e, sacando com energia o alfange, esporeou o cavalo a defrontar-se com o inimigo. Todos o seguiram com a mesma coragem e rapidez, e o cortejo de núpcias transformou-se numa cavalgada de morte.
Os soldados da cruz eram comandados por dois irmãos, Álvaro Rodrigues e Pedro Rodrigues, dois heróicos combatentes que vinham assolando o Alentejo, com o extermínio feroz das hostes sarracenas. Chegou o momento supremo. Os dois bandos acometeram-se com um furor de ódio e vingança. Confundiam-se as imprecações selvagens dos discípulos do crescente com os gritos de morte dos defensores da cruz.
Alfanges e adagas fulgiam em crispações de fogo e em manchas vermelhas de sangue a referver no ódio. Os cristãos, ao fim de poucos momentos, levavam os moiros de vencida. Tinham a vantagem do número e a preparação para a luta naquele momento. Os Árabes resistiam enquanto um sopro de vida lhes animou o braço rijo e destemido. Finalmente, sucumbiram todos.
Álvaro Rodrigues matara Bráfama, que tombou do cavalo murmurando palavras que os cristãos não puderam compreender.
Era preciso agora fazer o resto: tomar a vila de «Arucci-a-Nova». E Pedro Rodrigues lembrou um ardiloso expediente que havia de surtir efeito.
imediatamente os cadáveres foram despojados das vestimentas, que os soldados cristãos envergaram soltando gargalhadas e exclamações alegres.
Álvaro Rodrigues quis embrulhar-se no manto de Bráfama, o seu adversário morto; um soldado trouxe-lho; envolveu-se nele, meio enrolado, procurando ocultar as nódoas vermelhas do sangue do sarraceno, destacando-se como flores rubras sobre a alvura puríssima e brilhante. E, numa mascarada macabra e traiçoeira, o bando cristão encaminhou-se em galope rápido para a vila mourisca, atroando os ares com gritos de simulação festiva e exclamações árabes de saudação e alegria.
Ao divisar ao longe um turbilhão de poeira que avançava rápidamente, Salúquia e todas as escravas ergueram-se apressadamente num ímpeto de júbilo e curiosidade. Eram eles; em voz trémula, ordenou que fossem abertas as portas da vila e que gente da sua corte lhes fosse prestar as honras da recepção.
Correram os moiros da pequena terra a franquear as entradas, enquanto sobre o minarete Fátima, Zuleima e a deslumbrante corte feminina da «alcaidessa» preparavam um dilúvio de pétalas de rosas, para caírem como beijos alados sobre o cortejo desejado de Bráfama.
Os falsos mouros entraram, como uma rajada de sangue, nas muralhas em festa de Arucci-a-Nova. E no ar misuravam-se os ecos alegres das saudações dos Árabes aos gritos de extermínio da legião cristã.
Um grupo de agarenos fugiu em direcção ao castelo a avisar Salúquia do traiçoeiro ardil. Era impossível a resistência. A vila estava nas mãos dos cristãos que continuavam a espalhar a morte numa sementeira de ódio religioso, fatal e sanguinolento.
Salúquia teve, num momento, a visão rápida da tragédia. Pareceu-lhe ver ainda o noivo enviando no sopro da agonia o beijo nupcial, que os inimigos transformaram numa lágrima rubra a gelar na morte.
A nuvem do fatalismo que parara, como presságio, sobre o seu coração em toda aquela noite, convertera-se na tremenda tempestade de luto, assoladora como um furacão de dor e de desgraça.
As mulheres árabes soltavam gritos e ajoelhavam, elevando as mãos ao céu numa súplica de desespero e de fé. Lá fora rugia, cada vez mais intensa, a onda de aniquilação saída das adagas dos soldados da cruz, galgando, numa galopada sinistra, o curto caminho que conduzia ao castelo da governadora.
Salúquia, figura pálida e grandiosa neste drama horrível, parecia lançar um estranho desafio à legião que a ameaçava, pela serenidade do porte que as lágrimas já não vinham sentimentalizar.
Numa frase rápida, decisiva e firme, mandou que fossem cerrar as portas do seu castelo (último reduto ainda não conquistado). E, enquanto a ordem foi executada, passeava, serena e heróica, de um lado a outro lado do minarete, afogando o olhar no sangue que corria em toda a povoação, envolta na prece extrema que os lábios dolorosos das suas escravas enviavam a Allah, por suprema esperança de almas perdidas.
Trouxeram-lhe as chaves momentos depois, quando ao castelo chegava a vanguarda dos irmãos Rodrigues.
As portas estavam fechadas.
Era apenas um instante de demora, o tempo preciso para as forçar violentamente. E o trabalho começou, reforçado daí a pouco pelos que vinham depois, atroando os ares num ruído formidável que cobria as vozes clamorosas dos sitiados na sua crescente litania de angústia.
Salúquia subiu ao ponto mais elevado do minarete, apertando nervosamente numa das mãos as chaves da fortaleza, e num impulso rápido, do valerosa resolução do heroísmo, atirou-se ao espaço. Um espantoso grito de dor aflorou a todas as bocas:
 — Salúquia! — e correram a debruçar-se à muralha do minarete.
Na esplanada do castelo, pálida e linda, com um fio de sangue a manchar-lhe o rosto num sulco de morte, ela lá estava guardando heróicamente nas mãos fechadas, numa crispação de energia que a morte petreficava, as chaves do castelo árabe, de onde ia abater-se a bandeira rubra do Islam.
As portas ainda não estavam forçadas, e um dos cristãos ia arrancar brutalmente das mãos de Salúquia as chaves da fortaleza. Álvaro Rodrigues deteve-o. Fez-se na consciência um relâmpago de justiça, e sentiu esmagado o seu orgulho de conquistador perante aquele cadáver que era uma grande lição de heroicidade. Curvou-se sobre a morta e com uma dobra do manto de Bráfama, quis limpar-lhe a mancha de sangue que empanava um pouco a formosura do rosto de Salúquia; nesse momento o manto soltou-se e tombou de oculta prega uma rosa branca, em cujas pétalas havia nódoas estranhas de cor vermelha. E a rosa caiu num deslizar suave, sobre os lábios frios da princesa moura.
Era a rosa de Bráfama, que este escondera junto ao coração, e que o golpe mortal da adaga de Álvaro Rodrigues aljofrara num orvalho de sangue. A flor cumpria a sagrada súplica do noivo de Salúquia. O sangue de ambos misturou-se naquele ósculo fatal e perfumado, através das pétalas de uma rosa de misterioso destino.
O capitão português descobriu-se num gesto de respeito e ordenou homenagens fúnebres, solenes, grandiosas; e como preito imortal ao acto de bizarro valor, proclamou que «Arueci-a-Nova» passaria a denominar-se a vila de Moura.
E assim, através dos tempos, das raças e das gerações, vai perpetuando a minha linda e adorável terra alentejana a lenda dolorosa de Salúquia, cuja imagem pálida e formosa eu sonho a debruçar-se no velho castelo em ruínas, pelas noites luminosas e odoríferas como aquela do seu noivado de morte, que o destino transformou na manhã vermelha de uma epopeia de supremo heroísmo.
Fonte: Manuel Joaquim Delgado, A Etnografia e o Folclore no Baixo Alentejo, Assembleia Distrital de Beja, págs. 244-250.