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Não há nada escondido que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido. Pois nada está oculto, senão para ser divulgado; e nada está mantido em secreto, senão para ser trazido à luz…
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segunda-feira, 6 de junho de 2016
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Bom Dia Alentejo, a Santiago Maior, o Contrabando, a uma freguesia de Alandroal
A freguesia de Santiago Maior, o
concelho e toda a região em geral, viveram sempre uma situação agreste, muito
desprotegida a todos os níveis. Zona com bastante população onde predominava a
fome, miséria e o desemprego. Vivia-se com dificuldades económicas, muitas vezes
quem suportava toda esta crise era o pequeno comércio através do
"fiado". Ou se era trabalhador rural ou em alternativa, dada a
situação geográfica propícia, se praticava contrabando "não
profissional", sujeitando-se ao martírio e calvário das cargas e principalmente
do risco da própria vida.
Era uma tarefa
ingrata, praticada normalmente de noite, por caminhos e atalhos, por meio de
matos, arrífes e caminhos mais pedregosos, mais ocultos e possíveis de
esconderijo, com travessia do Rio Guadiana, a nado ou de barca, afim de
conseguirem ludibriar a tenebrosa Guarda Civil espanhola ou a nossa Guarda
Fiscal.
É certo que qualquer
autoridade ou a GNR poderiam intervir, apreendendo, prendendo ou autuando, mas
o maior medo e de que mais se precaviam era da passagem da fronteira.
Contrabandistas houve, que em locais mais recatados se esconderam para não
serem detectados, estando vários dias sem comer nem beber, aguardando que as
autoridades de cá e do lado de lá da fronteira se afastassem para outra zona,
só então seguindo caminhada com o fardo de contrabando às costas. Por vezes,
neste jogo de gato e rato, os guardas faziam "negaças"
A maior intensidade
de contrabando aconteceu desde a década de trinta e estendeu-se até à década de
sessenta. A Guerra Civil de Espanha, a 2º Guerra Mundial e a miséria em que o
povo do Alentejo vivia, intensificaram esta ílícita actividade, em busca de
meios de sobrevivência. O contrabando integrava homens de qualquer idade,
bastava terem bom fisíco, serem possantes, não medrosos, nem tímidos e capazes
de enfrentar as maiores adversidades ao longo dos percursos, para não largarem
a carga de qualquer maneira, só fazendo após grande perseguição.
Esta actividade
assegurava um esquema de comércio informal e de economia paralela, afectuando a
permuta clandestina de produtos e géneros que escasseavam, ora num ora noutro
lado da fronteira. Embora de natureza diferente, havia carências de ambos lados
da raia.
Para Espanha, para
além do tabaco, açúcar e café, no tempo da guerra com carência de tudo, levavam
pão, farinha, enchidos, e tudo o que fosse comestível. O contrabando mais
apetecido foi o café e tabaco dado a sua qualidade quando comparado com
o espanhol. Para Portugal calçado, alpercatas de corda, roupas, lenços da
cabeça, garridos, leques, perfumes, bebidas espirituosas, sedas, navalhas de
barba, isqueiros e inclusivé medicamnetos, além de outros em maior escala como
era a bombazina de excelente qualidade.
Era uma actividade
cheia de riscos: o abandono das cargas com o receio de serem apanhados e que
por vezes se tornava realidade; a prisão, cá ou lá, forçando-os a confessar
tudo o que sabiam sobre o contrabando; os ferimentos ou mesmo a morte, quando
baleados pelos guardas; o afogamento, nas travessias do Guadiana, efectuadas
durante noites sem luar em que as condições do rio não eram devidamente
avaliadas; a tortura em Espanha quando lá encarcerados.
Quando escondidos nos
cerros, por vezes eram detectados e obrigados a fugir, normalmente já tinham a
carga de tal modo escondida que, apesar das autoridades revolverem
matagais,covis e esconderijos, nem sempre encontravam o material. Após
afastamento dos guardas, os contrabandistas voltavam ao local, para se
certificarem se a sua carga tinha sido descoberta. Foi assim uma difícil forma
de sobrevivência.
Fonte: Memórias do
contrabando - Manuel Inácio Cotovio, 2006
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domingo, 24 de maio de 2015
Bom Dia Alentejo, Portalegre, a Côca de Portalegre
O trajo da Côca de Portalegre,
assim mes compadres e minhas comadres, era composto por blusa, saia, manto,
meias e sapatos…
A blusa, ela tinha um franzido nos punhos e assim na cintura. Finge uma blusa sob uma casaquinha com colarete e abotoa de lado ao pescoço, descendo depois ao meio do peito à cintura.
A blusa, ela tinha um franzido nos punhos e assim na cintura. Finge uma blusa sob uma casaquinha com colarete e abotoa de lado ao pescoço, descendo depois ao meio do peito à cintura.
Saia, ela franzida na
cintura e comprida até aos pés.
O manto, colocado sobre a cabeça, tapando o corpo da mulher até à cintura ou até à anca de acordo com o nível social de quem o veste. Até à cintura, se dirá a vossemecês compadres, para as mulheres abastadas e pela anca para as mulheres da classe média, sendo na parte da frente pendurada, a cair sobre o rosto, uma renda, espessa de forma a que a pessoa não possa ser reconhecida.
O manto, colocado sobre a cabeça, tapando o corpo da mulher até à cintura ou até à anca de acordo com o nível social de quem o veste. Até à cintura, se dirá a vossemecês compadres, para as mulheres abastadas e pela anca para as mulheres da classe média, sendo na parte da frente pendurada, a cair sobre o rosto, uma renda, espessa de forma a que a pessoa não possa ser reconhecida.
As meias, elas eram
pretas ou cinza, eram feitas à mão de cordãozinho.
Os sapatos, assim
para terminar o traje assim mes compadres e minhas comadres, eram pretos, assim tipo chinelo com um botão de lado ou
cordão atado no peito do pé, de fivela ou de atanado.
O trajo da Côca de
Portalegre, trata-se pois de um trajo de mulher, todo ele de cor preta, que no
início do século XIX, assim compadres e minhas comadres, era utilizado no dia
do casamento.
No início do século XX
e com a introdução de cores claras nos trajos de casamento, a Côca passou a ser
fato de viúva, de se ir confessar na semana santa, de ir à missa, ou para
efectuar visitas ou encontros clandestinos, assim se dirá a vossemecês, que
parece assim proibidos.
Era confeccionado em tecido de algodão, em
brocado de seda, e em merino de lã sedoso de acordo com as posses de cada
pessoa e condição social.
Este trajo, como tudo abala no Alentejo, deixou de se
visto na cidade de Portalegre por volta dos anos 30, assim do século XX.
Fonte: http://serenatasemportalegre.blogspot.pt
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sábado, 3 de janeiro de 2015
Bom Dia Alentejo, Indumentária Alentejana, Alentejo, a uma segunda pele da alma que gente
O modo de vestir das
populações rurais do Alentejo – deste meu Alentejo e vosso - foi uma das
características mais curiosas, mais típicas do povo alentejano. O traje tornava
inconfundível o homem do campo, em qualquer aglomerado de gente, por maior que fôsse-feira
ou romaria.
Resistindo à
influência da moda, cujo despotismo, sobretudo nos tempos correntes, todos nós
conhecemos, o vestuário do camponês alentejano manteve-se inalterável, na sua
essência pelo menos, durante largos anos, dando a impressão de que permaneceria
sempre invulnerável à acção caprichosa da moda, e à influência dos usos e
costumes de outros povos.
O vestuário do
alentejano – era assim mes compadres e que minhas comadres, assim – uma espécie
de cartão de identidade, uma certidão de proveniência, um documento que
identificava o respectivo portador sob o ponto de vista provincial, em qualquer
parte que aparecesse.
O cosmopolitismo da
vida moderna, devido à facilidade e rapidez de comunicação, determinou o
estreitamento e frequência de relações entre as populações mesmo afastadas,
resultando deste facto a penetração de costumes alheios e a consequente
alteração dos próprios.
Esta terá sido, a
nosso ver, uma das razões por que o nosso Alentejo tem perdido um pouco o seu
característico individualismo sob o ponto de vista da indumentária. (…)
Falemos primeiro do
vestuário de trabalho.
Os rurais alentejanos,
ainda no 3.º quartel do séc. XIX usavam calção de briche ou de tripe, polainas
de saragoça, altas, chegando quási ao joelho, abotoadas do lado de fora com
botões numerosos, de pouco valor. Vestiam camisa branca, feita de pano de
fabrico caseiro, tendo o peitilho mais ou menos rendilhado, os ombros com sua
bordadura e às preguinhas.
O colarinho era alto –
assim minhas comadres e que mes compades –, com duas ou quatro casas, onde
entravam os botões, ordinariamente de prata o que não é para admirar, visto que
ainda então a indústria e venda de jóias de pechisbeque se não tinha desenvolvido.
Os botões dos punhos eram igualmente de prata, com corrente.
Por cima da camisa
usavam o colete de tecido escuro (surrebeca em geral) e a clássica jaqueta,
chamada também véstia.
O chapéu – aquele enorme
chapéu alentejano – era o principal distintivo do camponês do Alentejo.
Grande – assim compadres
e que minhas comadres – com suas abas enormes recurvadas, preto, redondo,
colossal, o chapéu tinha ainda como acessório uma grande borla fixa, o portador
colocava ao lado esquerdo, quando fazia uso dele, e da qual muito se ufanava.
No tempo invernoso
usavam, como hoje ainda, para se defenderem do frio e da chuva, os safões, o
pelico, espécie de colete de pele com todo o pêlo, sem botões nem mangas e de
enfiar pela cabeça; e finalmente uma outra pele presa à cintura por correias e
destinada a proteger as nádegas.
Por cima de tudo
usavam um capote – assim pois estou dizendo a vossemecês – ainda hoje bastante
frequente, com mangas curtas e apenas um cabeção. Os ganadeiros – pois assim
minha gente -, especialmente os guardas de gado lanígero, mais expostos às
inclemências do tempo, traziam, como agora ainda em alguns pontos, samarra de
pele de ovelha com o pêlo conservado.
Um dos acessórios do
vestuário era a cinta, larga e comprida faixa de algodão, terminando em franjas
nas duas extremidades, que se enrolavam amplamente em volta da cintura,
prendendo a extremidade livre de modo que a franja pendesse ao lado.
O traje de festa, à
parte o calção, as polainas e o chapéu, sofreu mais profunda transformação do
que o do trabalho, pois o de hoje pouco tem do que do outro tempo.
Constava este de
camisa branca engomada com peitilho vistoso, de renda; colete rameado ou liso,
jaqueta com alamares de prata – 3 pares em geral - ; calção de tripe duma bela
cor azul, muito vistoso, com duas abotoaduras constituídas por grande número de
moedas de prata que iam do joelho à cinta, fivelas de prata na parte inferior
do calção; polainas escuras, de briche, abotoadas, com moedas de prata, em toda
a altura, excepto na parte superior em que ficavam propositadamente
desabotoadas para se poderem entrever as meias brancas; ligas vermelhas
segurando as polainas, com cordões de outra cor pendendo à frente.
Entre a cinta, que
era de merino, (ou cor de vinho ou encarnada) e o colete, era entalado à frente
um lenço, ordinariamente de seda, vistoso e flamante.
Os botões do
colarinho e dos punhos eram de oiro – como estais lendo mes compadres e que
minhas comadres, de oiro – como competia ao traje de gala.
Como cúpula desta
vistosa indumentária, via-se o clássico chapéu redondo que pouco diferia do
descrito.
Em certas solenidades
era indispensável o uso da capa, vistosa peça de particular apreço. Era de pano
azul escuro, farta, rodada e bastante comprida. Na gola, tinha alamares de
prata. Algumas eram forradas, pelo menos nas orlas da frente. Também se usavam
capas de briche escuro.
Seria curioso
acompanhar a lenta evolução da indumentária masculina, desde as calças de
alçapão, imediatas sucessoras dos calções, até aos nossos dias: mas vai longo
este, por isso ficamos por aqui.
E foi assim mes compadres
e que minhas comadres, e que foi assim pois que vos o digo, Manuel Subtil,
Indumentária rural do Alentejo, Revista Casa do Alentejo, 194(?).
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