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domingo, 7 de dezembro de 2014

Bom Dia Alentejo, Flor da Rosa, a Lenda de Flor da Rosa, Rosa que de amor ao amado morreu

 
Havia em tempos muitos antigos um pequeno lugarejo, onde vivia um cavaleiro de nome ilustre, muito estimado por fidalgos e povo. Ora este cavaleiro adoeceu gravemente e soube-se que poucos dias lhe restavam. Como era muito estimado, iam-lhe levar presentes. Entre as pessoas que o visitavam, uma chamada Rosa levou-lhe uma flor do seu nome. Foi para o cavaleiro a melhor visita e a mais bela prenda, pois ROSA era sua noiva. Todas as pessoas esperaram a morte do cavaleiro, mas o destino é por vezes traiçoeiro e foi ROSA que morreu, tendo-se ele salvo. Desde esse dia, o cavaleiro era muitas vezes encontrado a chorar junto da campa da sua noiva. Então os desgostos matam-no. Mas nos últimos momentos da vida faz dois pedidos: Queria que a flor que ROSA lhe oferecera o acompanhasse à sepultura e que fosse dado àquele lugar o nome de FLOR DA ROSA em homenagem à sua amada.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, a Lenda da Princesa Encantada, Moura, terra do Sobral da Adiça, o Poço o Tesouro, uma Beleza encantada que o guarda

 
Há muitos anos atrás, havia um rei que tinha uma filha. Mas como teve de partir para junto dos seus soldados, despediu-se e recomendou à princesa que se portasse bem.
Um dia recebeu uma carta dizendo que a filha tinha arranjado um noivo na aldeia. Ficou furioso pois ele queria que a filha casasse com um rapaz de família e rico, que frequentasse a corte. Regressou ao castelo e disse à princesa que se não deixasse o rapaz, seria castigada. Porém, a rapariga não obedeceu ao pai. Então o rei chamou um dos seus guardas e mandou chamar um feiticeiro que ali morava na cidade, para que lançasse um feitiço à filha. A princesa, coitada, foi transformada numa serpente e o feiticeiro disse ao rei que a sua filha já encantada ficaria dentro de um poço a guardar um tesouro na Serra da Adiça.
E assim o encantamento só se quebrará se um homem for ao poço e der um beijo nos cabelos da cobra.
Bom Dia Alentejo!
Fonte: António Ferreira Lopes, Contos e Lendas Populares e de Transmissão Oral na Serra da Adiça, in: Arquivo de Beja, vol. XIV, serie III, 2000, p. 66
Foto: http://img.ibxk.com.br/2013/9/megacurioso/192856626006353958.jpg

 

domingo, 4 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, a terra de Castelo de Vide, Lenda da Fonte dos Cães, o encanto lhe dobrou

 
 
Contava-se que uma noite vindo um rapaz de namorar, resolveu dessedentar-se. Quanto o fazia apareceu-lhe um homem que lhe disse:
“Então estás a beber as sobras da minha cozinha?”
Como o moço se mostrasse espantado logo o levou junto de uma placa de pedra por cuja argola puxou.
Apareceu uma escada de mármore por onde desceram e que dava acesso a um maravilhoso palácio.

Após a visita o estranho homem disse:
“Se quiseres ganhar todas estas riquezas só terás de vir amanhã à meia-noite. Há-de aparecer um touro e tu hás-de-lhe aparar três sortes.”
Ao outro dia o rapaz na mira de enriquecer de um momento para o outro ter-se-ia deslocado à fonte à hora combinada, onde viu o touro que investiu nele.
Aguentou a primeira e a segunda investidas, mas cheio de medo desistiu à terceira.
Então ouviu uma voz dizer:
“Ah! Ladrão! Que me dobraste o encanto!...”
 Fonte: Maria Guadalupe Alexandre, Etnografia, Linguagem e Folclore de Castelo de Vide Viseu, Junta Distrital de Portalegre, 1976
Bom Dia Alentejo!

 
 

 

Bom Dia Alentejo, Campo Maior, a Lenda de Chévora, Maria Clara donzela Julieta em português

  

 
Em frente da villa d’Ouguella se lhe junta o rio Abrilongo e mais abaixo 9 kilometros o Bótova. Suas margens são quasi todas cultivadas, bellas e ferteis. É em parte orlado de frondoso arvoredo.
Proximo a este rio, na Quinta de Crastos, houve uma torre muito alta, e a respeito d’ella ha a lenda seguinte:
Moráva na tal torre, um emir sarraceno, do qual se enamorou uma dama lusitana chamada Clara Moniz, que fugiu para a torre do seu amante; mas, receando a vingança dos christãos, encantaram-se, e assim estão invisiveis, no rio, até que um cavalleiro christão lhe quebre o encanto, em uma noute de S. João; e logo o mouro se fará christão, casará com a senhora D. Clara e serão muito felizes!

 Fonte: Pinho Leal, Portugal Antigo e Moderno, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873], p. tomo II, p. 293
 
Bom Dia Alentejo!


quarta-feira, 30 de abril de 2014

Bom Dia Alentejo, a Lenda da Costureirinha, a Promessa que não lhe foi paga

 
 
Conta esta lenda, a Lenda da Costureirinha, a história de uma costureira que tinha uma filha em idade de casar e resolveu dar-lhe, como prenda de casamento, uma máquina de costura.
A costureira, não tinha posses para pagar a máquina no acto da compra. Ainda assim, conseguiu adquirir a máquina ficando de pagá-la mais tarde.
Pouco tempo decorrido, a costureira morreu, não podendo por isso pagar a dita divida.
Ainda hoje, em algumas casas da freguesia, se diz ouvir “o trabalhar da máquina da costureirinha”.
 Reza a tradição que, o espírito da costureira não terá descanso, devido ao facto de ter morrido sem ter pago a sua divida.
 
Fonte: António J. Gonçalves, Monografia da Vila de Almodôvar, Associação Cultural e Desportiva da Juventude Almodovarense, s/d , p.123-124
 
Bom Dia Alentejo!
 
 



terça-feira, 29 de abril de 2014

Bom Dia Alentejo, Nisa, a Lenda da Faiopa, a água a levou



Defrontavam-se nas duas margens do Tejo — reza a tradição —  dois castelos, ali postos para domínio e guarda de terras, cujos senhores militavam em campos adversos: um, defensor do Evangelho; o outro, sectário do Corão. Visigodos e mouros digladiavam-se então em pugnas ferocíssimas, alongando-se por contínuas algaras e fossados e deixando à guarda dos seus castelos inacessíveis a fragilidade das mulheres e a inocência das crianças.
Ora sucedeu que D. Urraca — esposa de certo fidalgo cristão — enquanto este acutilava agarenos, se esqueceu, no seu castelo das Portas de Ródão, do que devia à honra de quem tão denodadamente combatia. E, perdidamente, tresloucadamente, precipitou-se nos braços de um nobre da mais alta linhagem mourisca, que trocara os rigores da guerra pelas blandícias da infiel. E diz a lenda que o buraco da Faiopa era o extremo da passagem subterrânea utilizada pela dama cristã, quando saía do castelo para, de barco, ir em demanda do mouro que a perdera.
Viveram longo tempo em descuidosa e absorvente paixão. Mas, certo dia, o marido atraiçoado aparece inesperadamente e, em vez das dúlcidas alegrias do lar, a que lhe davam direito seus feitos de estrénuo batalhador, esperam-no a infâmia e a desonra. A adúltera sofreu então o justo castigo da infidelidade: Foi no mesmo pego — sobre cujas águas ela diariamente passava a caminho do castelo fronteiro —  que o marido ultrajado a precipitou, depois de lhe atar ao pescoço pesada pedra de moinho.
E nos torvelinhos do pego de D. Urraca — nome por que ainda hoje é conhecido — lá se afundou para sempre a desvairada.
A sua alma por ali anda penando, entre as fragas e ruídos do cachão, em lamentos de dor e gritos de desespero, que se perdem na solidão daquelas quebradas e penedias.


Fonte: José Francisco Figueiredo, Monografia de Nisa, Câmara Municipal de Nisa, 1989 , p. 287-288
Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpKd8P4k46qwK22Bc3LOp_-MthyphenhyphenMXYTbKFD2A5ZtdMSM-SOMJoIedjTO4jK6SCBPC04H-UTB32OJ8viVTKIUAlNEi__vSIeHy52ynYZT0_S6Ni57sSA6m1BbqAbFfRcB9Cjrp9dIxEEWrJ/s1600/dulce.jpg

Bom Dia Alentejo!

domingo, 27 de abril de 2014

Bom Dia Alentejo, Estremoz, Convento de São Francisco, Milagre das tochas


É de tradição que no convento de S. Francisco de Estremoz, no princípio da religião seráfica, sucedeu um portentoso milagre de vinte e nove tochas acesas sobre o telhado do clero do dito convento.
Pedro Bom, natural da vila, ao tempo do acontecimento a entrar na adolescência, observou pela meia-noite que, sobre o telhado daquela casa conventual se acendiam variadíssimas luzinhas que, aos poucos, ganharam a forma de chamas e, por fim, de tochas. Num movimento constante sobre o telhado pareciam dobrar-se, tomavam formas humanas, pois o movimento mais parecia um ritual de solenes exéquias.
Pedro Bom ficou profundamente emocionado pelo portento do acontecimento e muito mais ainda quando, contando-as uma a uma, verificou serem ao todo vinte e nove religiosos que habitavam no referido convento de S. Francisco da vila.
 

 
Fonte: Lendas e Outras Histórias Estremoz, Escola Profissional da Região Alentejo / Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz, p.21-22
Foto: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b7/Igreja_e_Convento_de_Sao_Francisco_(1).JPG

Bom Dia Alentejo!

Bom Dia Alentejo, a Lenda de Santo António dos Arcos, no sebúrbio de Estremoz, a Arcos

 
Segundo informação recolhida no local, a igreja de Arcos, consagrada a Santo António, terá sido fundada no século XV ou início do século XVI.  Há notícias da sua existência no início do século XVI e alguns dos seus elementos são atribuídos a esta época, nomeadamente, o portal de mármore, debaixo do alpendre frontal e os azulejos que se encontram no interior.
 


Mas nos subúrbios amigos meus, da cidade de Estremoz, há uma freguesia chamada Arcos. Conta aquela gente ali residente a seguinte lenda:
Junto duma fonte ali existente estava uma mulher chorando, pois ia à fonte e chorava amargamente pelo seu filho estar em perigo de vida.
Diz-se que apareceu Santo António e lhe perguntou:
- Porque choras?
Ela respondeu-lhe.
- O meu filho está gravemente doente. Está às portas da morte.
Serenamente, Santo António respondeu-lhe:
- Vai sossegada para casa, que o teu filho está curado. A tua fé te salvou.
Nesse mesmo lugar foi mandada erguer uma igreja há aproximadamente três séculos, chamada a igreja de Santo António dos Arcos.
Lia “Lendas e Outras Histórias Estremoz, Escola Profissional da Região Alentejo / Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz,  p.73-74”
 

domingo, 20 de abril de 2014

Bom Dia Alentejo, Aldeia da Mata, a lenda da Laje do Ouro, uma terra que é bocado do Crato

Tem sido esta pedra motivo de muitas conversas desde os nossos antepassados. E quanto não se tem fantasiado, só pela simples razão de estar facetada numa parte, e com um arabesco em relevo que não tem parecença com coisa alguma. Mas dizem tratar-se dum ferrolho: seja ferrolho ou não há que respeitar o passado. (…).
Como é do conhecimento de todos, o progresso entre nós estendeu-se às entradas e caminhos. Lembro que a propriedade onde está o penedo da lenda, confronta ao Norte com o caminho da Laje do Ouro, como é conhecido entre nós, e o dito penedo entra no caminho.
Conhecido na Aldeia da Mata pela Laje de Ouro, é um enorme penedo de granito de forma arredondada, com cerca de 80 metros de diâmetro, e com a altura de metro e meio, na sua parte mais alta. A pedra como já foquei, é arredondada. Tem uma parte plana, rente ao chão, onde está, como que cinzelada à mão uma forma em relevo, a que chamam ferrolho. A parte mais alta do ferrolho, parece que está inserida nos lados de um quadrado, onde podemos ver da mesma maneira (como cinzelada), uma ferradura.
Na voz do povo, este ferrolho fecha um grande e maravilhoso tesouro de pedras preciosas e ouro.
Todo este tesouro pertencia a uma moura, a mais linda do seu tempo na sua localidade. Não obstante, sofreu um grande desgosto de amor, que a levou aos caminhos da vingança e do encantamento. Havia um homem por quem estava verdadeiramente aa paixonada, e pensava ser correspondida, o que não era verdade. Ele apenas estava interessado no tesouro e não na sua dona. Só que o não dava a conhecer, para um dia, não distante, se poder apoderar do magnífico dom que era uma enorme riqueza que a donzela possuía.
Após uns tempos de ilusão, e não sabendo como, alguém levou aos ouvidos da donzela a tão cruel verdade. Então ela foi esconder o seu tesouro, precisamente no sítio ainda hoje se encontra a referida pedra, deixando todavia, um encantamento: - Só homens corajosos te conseguirão levar. Quem te quiser possuir terá de vir só e de noite. Não necessitará de lanterna, porque o teu brilho dará tanta luz, como o sol, e tornará as trevas em dia.
Entretanto, algo iria mudar os acontecimentos. O apaixonado pelo tesouro, ao inteirar-se do que tinha acontecido, montou-se no seu cavalo e foi em sua perseguição, o mais rápido que foi possível.
Na obstante, só a conseguiu alcançar quando ela já estava a escavar para enterrar o tesouro. O cavalo corria tanto que ele não o conseguiu parar. Este atingiu a moura na testa, prostrando-a por terra onde ficou moribunda.
 


Ao sentir as agonias da morte, ela transformou-se num grande bloco rochoso, a fim de proteger da cobiça do maléfico homem o seu tão belo e precioso tesouro. Efectivamente, aquele enorme penedo que se vê não é mais que a moura Encantada; e ainda se pode ver o sítio onde o cavalo a atingiu. Ele é nada mais, nada menos, do que o sulco na rocha em forma de ferradura.
Um homem houve há muitos anos, que quis mostrar sua valentia, e ao mesmo tempo ficar rico para o resto da sua vida. Com efeito, numa noite de completa escuridão, e com todo cuidado, para não ser surpreendido, foi com enxadas e picaretas, em busca da tão falada fortuna.
Algumas horas, após muito ter escavado na rocha, uma voz que mais parecia um trovão, fez-se ouvir dizendo: - Homem, há muito que esperava por ti!... Todavia, pára de cavar, pois não terás a ventura de possuíres, nem sequer de completares tal tesouro!... Ele continuará aqui, por gerações e gerações, já que não há homens que não desconheçam o medo e a cobiça. Esta é a vontade da minha senhora, a moura mais linda das mouras…
O pobre do cavador, quando deixou de ouvir a voz, na obstante de estar cheio de medo, ainda encontrou coragem suficiente para perguntar: - E quem és tu que me ousas assustar? E a voz continuou: - Sou o guarda fiel do tesouro que minha dama e senhora, esconde sobe o seu encantamento.
O primeiro homem morrerá em presença de tanta beleza e riqueza; o segundo, será verdascado até ao último sopro de vida e o terceiro quebrará o encanto, e minha ama louvá-lo-á com um dos seus sorrisos, e com tanta fortuna, como aquela de que ela é possuidora.
Assim a Laje do Ouro continua a esconder o seu segredo, à espera de três homens desconhecedores do medo e da cobiça, ou melhor, de dois que queiram dar a sua vida em benefício do terceiro que ficará rico e quebrará o encanto.
Esta lenda foi recolhida por fragmentos, da boca de velhos já desaparecidos, e reconstruída por: João Guerreiro da Purificação e João Manuel Farinha.

Foto: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=540006472725004&set=o.184521331583622&type=3&permPage=1
Fonte: A Nossa Terra, João Guerreiro da Purificação, Associação de Amizade e Terceira Idade, Aldeia da Mata, 2000

Bom Dia Alentejo!

domingo, 9 de março de 2014

Bom Dia Alentejo, Marvão, a Lenda do Castelo de Marvão, O céu, o puro lar, a Casa é mesmo no topo

 

Caía a tarde de mansinho.
O sol punha rabiscos de fogo no firmamento azul-cinzento.
No vale, onde algumas casas pequenas pareciam de brinquedo, vistas do alto do monte, uma jovem tocava harpa de um modo quase distraído. O seu rosto de belas feições gritava sem voz a aflição que a dominava. Perto, uma dama de meia-idade tecia. Também a sua expressão era triste, apreensiva...
De súbito, a jovem parou de tocar, deixando incompleta a ária de amor e queixume que até aí nunca deixara em meio. Gemeram as cordas da harpa, num soluçar dolente, ao abandono dos dedos da jovem. A dama de meia-idade ergueu a cabeça. Fitou a donzela e, numa voz bondosa, perguntou:
— Que tens, Maria? Porque não continuas?
A jovem suspirou. A sua voz soou baixa e fraca.
— Não posso! Perdoa-me, mas não posso!
Sorriu a dama, num sorriso que lembrava lágrimas.
— Sei o que te aflige: a demora de Marcelo. Mas pretenderás tu amá-lo mais do que eu, que sou sua mãe?
Novo suspiro de Maria, agora mais forte. Torceu as mãos, como a tentar dominar-se. Mas logo se levantou do cantinho onde estivera tocando e veio sentar-se aos pés da sua protectora. Deitou-lhe a cabeça no colo. Queria atordoar-se, esquecer que o tempo corria! A senhora acariciou-lhe os cabelos. Voltou a falar-lhe:
— Tem calma! Assim nada conseguirás. E torno a lembrar-te que não o amas mais do que eu...
Maria ergueu o olhar. Olhos rasos de lágrimas.
— Queres-lhe muito, bem sei. Tanto como eu. Mas eu e tu somos diferentes!
— Diferentes em quê?
— No sangue que corre em nossas veias! O meu não é igual ao teu. O meu não vem desse glorioso Viriato, símbolo deste povo não menos glorioso!
Voltou a senhora a acariciar os cabelos da jovem, sentada a seus pés.
— Criei-te de pequenina, minha filha, e ensinei-te a seres forte como todos os Lusitanos. Terás, pois, de ser como nós!
O nervosismo punha um estrangulamento na voz da jovem Maria.
— Sei lá qual será a minha origem! Grega?... Romana?...
— A tua origem, agora, pouco importa! Quando te encontrei abandonada no sopé desta montanha que se ergue à nossa frente, não quis saber quem eras, nem donde terias vindo. Eras uma criança que chorava com fome e tremia de frio!
Com arrebatamento, a jovem ajuntou:
— E hoje sou a futura esposa de Marcelo, o teu filho bem-amado!
— O meu único amparo moral, desde que os Romanos mataram o meu esposo! Tu ainda o viste. Mas eras pequenina quando o levaram daqui... Nunca mais soube dele, nunca mais! Nem sequer qual foi o seu fim, nem onde o enterraram!
A voz da senhora que falava endureceu um pouco e acrescentou:
— Por isso, minha filha, Marcelo tem uma dívida de sangue para com os Romanos!
A jovem ergueu-se.
— Eis o que me aflige ainda mais!
— Porquê? Não acreditas no destino? Que podes recear mais do que eu? O que está escrito terá de cumprir-se, queiras ou não queiras, soframos ou não!
— Não compreendo esse fatalismo.
O olhar da senhora iluminou-se.
— Escuta, Maria… Marcelo vem aí!
Levantou-se a jovem num sobressalto.
— Onde?
Baixo, quase num sussurro, olhos perdidos no espaço, a dama esclareceu:
— Algures. Mas vem aí. Pressinto-o mesmo à distância! Não descobres o mesmo? Não és mãe, Maria. Não podes sentir o que eu sinto!
Mas já a jovem, num impulso, a interrompia:
— Deixa-me ir ao seu encontro!
Num sinal negativo, a mãe de Marcelo abanou a cabeça.
— Não, Maria! Tu corres mais do que eu e chegarás a seu lado antes que eu o veja. E então... ambos se esquecerão desta pobre velha, que anseia, como tu, por ter notícias, embora saiba dominar-se! Não, Maria. Espera um pouco. Ele já vem perto. Não tardará!
Calou-se a dama. Mas o silêncio que as separou durou apenas alguns segundos. Já se distinguia o ruído de um cavalo correndo. Depois estacou. Marcelo desceu e entrou impetuosamente na sala onde as duas mulheres o esperavam. Correu para a mãe, beijou-a, mas logo a deixou para ir estreitar nos seus braços fortes a sua deliciosa, inquieta noiva. Com beça encostada ao peito largo do lusitano, Maria queixou-se:
— Como tardaste, Marcelo! Já estava em cuidado!
Ele tomando nas mãos a linda cabeça de fartos cabelos bem penteados, olhou-a, a fundo, nos olhos. A sua expressão era de amargura e a amargura soou também a sua voz:
— As notícias são péssimas! Cássio Longino tem vindo a destruir tudo por onde passa. É um homem rancoroso, mau, um monstro de ambição!
Serena, a mãe de Marcelo falou:
— Chegou talvez a nossa hora... Mas quem sabe se não terá chegado também a desse tal Cássio Longino?
Marcelo encheu o peito de ar, antes de responder:
— Tudo é possível agora, minha mãe. Mas uma coisa se torna urgente.
— O quê, meu filho?
— Pô-las a salvo antes que ele chegue!
A dama franziu as sobrancelhas. O seu rosto fechou-se numa expressão simultaneamente dura e dolorosa.
— Queres pôr-nos a salvo? Como?
Respirou de novo Marcelo, antes de responder.
— Mãe! Demorei-me, justamente, para encontrar o único meio de as livrar de Longino. Lembrei-me que o monte que nos deu a nossa Maria poderia talvez conservá-la agora longe de perigo.
Num grito, a jovem agarrou-se a Marcelo.
— Não quero separar-me de ti!
Mas a voz da velha senhora voltou a ouvir-se, serena.
— Talvez Marcelo tenha razão. Os homens não combatem com a mesma liberdade de espírito quando têm a seu lado a mulher que amam.
A jovem revoltou-se.
— E ele... ficará aqui, sozinho?
A mãe de Marcelo perguntou:
— Todo este povo, para ti, não representa nada?...
— Mas ele não é o chefe!
— O chefe é um velho e não tem filhos. Marcelo é o seu lugar-tenente. Não poderá agora abandoná-lo.
E acrescentou, voltando-se para o filho:
— Diz-nos onde se encontra o esconderijo que nos destinas, Marcelo, e eu própria conduzirei Maria até lá.
O jovem guerreiro levou uma das mãos à testa.
— Custa-me deixá-las partir sozinhas. Eles podem aparecer de um momento para o outro.
A mãe tornou:
— Por isso mesmo, deves ficar! Diz-me o caminho para chegar local que escolheste.
Marcelo fechou os punhos.
— Receio que não saibam encontrá-lo. É de difícil acesso e…
A velha senhora interrompeu-o, enérgica:
— Marcelo, diz-me o caminho antes que se faça tarde! É lá no cimo do monte?
— Sim. Mais ou menos no lugar onde encontrou Maria. Escute com cuidado…
E o jovem explicou em pormenor o difícil mas único caminho que levaria à salvação a mãe e a noiva.
Elas partiram por fim. Levavam poucos mantimentos e muitas apreensões.
Ainda não havia decorrido uma hora sobre a fuga de Maria e da mãe de Marcelo, quando o exército de Longino caiu sobre a pobre aldeia. A defesa estava entregue a um número inferior à centena.
 


Quanto aos romanos, chegavam aos cachos, passando do milhar. Travou-se a luta. Luta de desespero, da parte invadida. Luta de vida ou de morte. Talvez porque os lusitanos estavam decididos a vender cara a vida, não querendo entregar-se nem morrer sem causar danos, o combate prolongou-se mais do Cássio Longino esperava. O facto enervou o procônsul romano. Mandou redobrar de esforço e crueldade. Os lusitanos, porém, continuavam firmes, embora cada vez em menor número, dispostos a morrer matando o mais que pudessem. Todavia, já reduzidos a uma vintena, o chefe consentiu na entrega da aldeia e dos seus homens em troca de liberdade das mulheres. E a luta cessou, com grandes baixas também do lado do invasor.
A manhã já vinha quando o procônsul romano mandou enfileirar os dezasseis homens que restavam, para virem à sua presença. Um a um ele ia ouvindo e poupando a vida aos que possuíam bens que lhe dessem em troca. Depois de ouvi-los, Cássio Longino fazia a sua escolha. E um a um, iam passando esses lusitanos fortes de corpo e alma, mais amargurados ainda por estarem vivos mas vencidos, ante a figura odiada do chefe romano, escutando a sua sentença de vida ou de morte. Até que chegou a vez do jovem Marcelo.
Longino olhou pouco à vontade esse rosto pálido mas de olhar duro e firme que o causticava. Para disfarçar ou para se vingar dessa ousadia falou-lhe:
— Tu eras o subchefe. Para salvares a vida precisarias de grandes riquezas. E, segundo me informaram, pouco mais tens que a tua casa e uma dúzia de cabeças de gado.
Altivamente, Marcelo respondeu:
— A minha vida não está à venda, creio!
Longino sorriu felinamente:
— És pobre e orgulhoso?... Olha que o teu chefe pagou cara a ousadia de falar-me como grande senhor! Não só o mandei degolar, como fiquei com todos os seus haveres!
Marcelo retorquiu, rápido:
— O mesmo te acontecerá um dia!
Longino rangeu os dentes e sentiu desejo de ferir, de marcar cruelmente o seu inimigo. Sabia que a morte não o afligiria, porque era bravo. Mudou de táctica.
— Se não fosse o preço da tua vida, creio que não resistiria a fazer-te desaparecer, e já!
Marcelo surpreendeu-se.
— O preço? Que preço? Acabaste de afirmar — e é verdade — que pouco mais tenho que uma dúzia de cabeças de gado e a minha casa. Isto basta ao teu espírito ambicioso?
Cássio Longino riu com maldade. Depois sublinhou bem a frase que iria ferir Marcelo:
— Tu nem sabes dar valor ao tesouro que possuías!
O lusitano alarmou-se.
— Que tesouro?
— Amaia!
Marcelo, fora de si, gritou:
— Como sabes o seu nome?
Sorrindo sempre, Longino disse apenas:
— Foi ela.
— Ela?... Quando?
— Não grites, jovem louco!
— Quero saber quando te disse ela o seu nome!
— Ontem, quando chegámos... Ela ia a fugir...
Louco de dor e de fúria, Marcelo gritou mais:
— Onde a escondeste?
— Na minha tenda.
— Maldito! Não ouses tocar-lhe, porque te arrependerás!
Num requinte de cinismo, Longino vibrou o golpe maior.
— Amaia já não te pertence! A velha deu-ma em troca da tua vida; quando os meus homens as descobriram a caminho da montanha!
Quase possesso, Marcelo ia atirar-se ao procônsul, mas foi agarrado pelos soldados romanos. Alucinado, gritou-lhe:
— Mentes! Mentes, malvado! A minha mãe daria a vida por ela!
Sem alterar a voz, o romano tornou:
— E deu.
Os olhos de Marcelo abriram-se num ímpeto de loucura. Baixou a voz, tornando-a cava.
— Que dizes?
— O que ouviste. Depois de nos entregar a jovem Amaia, voltou a buscá-la, no mais aceso da nossa luta. Calcula que matou um dos guardas, essa velha de granito: libertou a jovem, e já iam de novo a fugir, quando foram descobertas. Os meus homens mataram a velha e teriam morto a outra se... se ela não me tivesse agradado tanto!...
Marcelo rugiu, agarrado pelos soldados:
— Maldito sejas enquanto viveres! Maldito sejas onde estiveres, seja na terra ou no mar!...
Enfadado já, Cássio Longino ordenou:
— Levem-no daqui!
Marcelo gritou de novo:
— Só depois de matar-te!
E, lutando, tentou libertar-se dos braços que o seguravam, na ânsia de desfazer o procônsul romano. Mas Longino gritou:
— Segurem-no bem! Parece um tigre!
De rastos, Marcelo foi levado da sala. Mas gritava ainda:
— Amaia nunca será tua! Sei que preferirá morrer! Sei! Compreendes?...
Como resposta, Longino ordenou em voz mal segura:
— Que se aproxime o que estava atrás desta fera que saiu. Vamos continuar! Tu? Não tens bens?
— Não.
— Pois serás degolado! O outro a seguir? Ah! Já sei... já me disseram… Tu és rico... Está bem... Ficarás preso até sairmos desta aldeia… O outro?
Um homem de meia-idade adiantou-se.
— O que tenho não te chega, decerto, porque não lhe sabes dar valor.
— Que possuis?
— Honra!
— Degolem-no! Agora o último. Já começo a estar cansado disto! Que tens para me dar em troca da tua vida?
Cerrando os dentes, o último homem da fileira dos prisioneiros declarava:
— Ódio! Só ódio para te dar! Mas esse é muito, muito!
Sem esperar mais, Longino ordenou:
— Degolem-no também!
E levantando-se da sua cadeira de espaldar, a cadeira do chefe aldeia, declarou:
— Vamos buscar Amaia e ver o que havemos de fazer dessa fera que foi subchefe do inimigo e deverá morrer! O ar aqui pesa-me... Sigamos para outras terras, quanto antes!
Quando Cássio Longino chegou à porta da tenda onde ficara Amaia vigiada por dois soldados, viu esta abandonada. Entrou nela e achou-a vazia. Alucinado, chamou os seus homens.
— Rebanho de imbecis! Onde está Amaia?
A medo, um dos soldados explicou:
— Quando trazíamos Marcelo, este conseguiu libertar-se e fugir para aqui. Então lutou contra nós quatro, ajudado pela rapariga. Dois dos meus camaradas morreram, outro está cego e eu... escapei porque viera buscar reforços...
Foi a vez de Longino rugir:
— Cambada de poltrões! Um homem desarmado vencer quatro soldados!... Para onde fugiram?... Vamos! Reúnam cinquenta homens e sigam-nos! Devem ter ido para a montanha!
Logo se formou o batalhão que iria buscar os fugitivos. A montanha silenciosa e austera era o objectivo. Mas a busca começou a tomar-se difícil. Longino gritou:
— Têm a certeza de que passaram por aqui?
Um dos soldados informou:
— Cássio Longino... Vi-os subir aquele escarpado à beira do precipício. Não vale a pena procurá-los. Não irão longe… porque por ali... mal vão!...
Gritou de novo, o procônsul:
— Mal vão, porquê?
— Porque encontrarão a morte entre os rochedos...
Mas a montanha silenciosa e austera deu abrigo aos fugitivos. Ali ficaram Marcelo e Amaia, lado a lado, corações batendo em uníssono, cheios de dor pela perda da que tudo sacrificara por eles. E os homens de Cássio Longino abandonaram a perseguição ao jovem casal e seguiram para outras terras, espalhando sempre terror e desolação. Mas a maldição caiu sobre Cássio Longino. Quando este, mais tarde, regressava ao seu país natal, encontrou a morte no mar, onde ficou sepultado com todas as riquezas que adquirira durante as lutas com os Lusitanos.
Entretanto, lá no alto da montanha silenciosa e austera, Marcelo e Amaia foram construindo, pedra a pedra, a sua casa. E os seus descendentes, dessa pequena casa fizeram um castelo — o castelo de Marvão — grito que ecoado pelas penedias e levado pelo vento chegou aos ouvidos dos que ficaram quando os soldados romanos diziam dos fugitivos:
— Mal vão! Mal vão!...
Esta é a lenda do castelo de Marvão, que chegou a ser pertença dos Mouros, mas que, finalmente, D. Sancho II conquistou, para o limpar da gente inimiga e dar de presente a Portugal.
De Lendas de Portugal, Gentil Marques, Lisboa, Círculo de Leitores, Lisboa, 1997 [1962], p.Volume II, pp. 159-166

Bom Dia Alentejo!
A alma que lhe escondida é tanta…
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