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domingo, 9 de março de 2014

Bom Dia Alentejo, Marvão, a Lenda do Castelo de Marvão, O céu, o puro lar, a Casa é mesmo no topo

 

Caía a tarde de mansinho.
O sol punha rabiscos de fogo no firmamento azul-cinzento.
No vale, onde algumas casas pequenas pareciam de brinquedo, vistas do alto do monte, uma jovem tocava harpa de um modo quase distraído. O seu rosto de belas feições gritava sem voz a aflição que a dominava. Perto, uma dama de meia-idade tecia. Também a sua expressão era triste, apreensiva...
De súbito, a jovem parou de tocar, deixando incompleta a ária de amor e queixume que até aí nunca deixara em meio. Gemeram as cordas da harpa, num soluçar dolente, ao abandono dos dedos da jovem. A dama de meia-idade ergueu a cabeça. Fitou a donzela e, numa voz bondosa, perguntou:
— Que tens, Maria? Porque não continuas?
A jovem suspirou. A sua voz soou baixa e fraca.
— Não posso! Perdoa-me, mas não posso!
Sorriu a dama, num sorriso que lembrava lágrimas.
— Sei o que te aflige: a demora de Marcelo. Mas pretenderás tu amá-lo mais do que eu, que sou sua mãe?
Novo suspiro de Maria, agora mais forte. Torceu as mãos, como a tentar dominar-se. Mas logo se levantou do cantinho onde estivera tocando e veio sentar-se aos pés da sua protectora. Deitou-lhe a cabeça no colo. Queria atordoar-se, esquecer que o tempo corria! A senhora acariciou-lhe os cabelos. Voltou a falar-lhe:
— Tem calma! Assim nada conseguirás. E torno a lembrar-te que não o amas mais do que eu...
Maria ergueu o olhar. Olhos rasos de lágrimas.
— Queres-lhe muito, bem sei. Tanto como eu. Mas eu e tu somos diferentes!
— Diferentes em quê?
— No sangue que corre em nossas veias! O meu não é igual ao teu. O meu não vem desse glorioso Viriato, símbolo deste povo não menos glorioso!
Voltou a senhora a acariciar os cabelos da jovem, sentada a seus pés.
— Criei-te de pequenina, minha filha, e ensinei-te a seres forte como todos os Lusitanos. Terás, pois, de ser como nós!
O nervosismo punha um estrangulamento na voz da jovem Maria.
— Sei lá qual será a minha origem! Grega?... Romana?...
— A tua origem, agora, pouco importa! Quando te encontrei abandonada no sopé desta montanha que se ergue à nossa frente, não quis saber quem eras, nem donde terias vindo. Eras uma criança que chorava com fome e tremia de frio!
Com arrebatamento, a jovem ajuntou:
— E hoje sou a futura esposa de Marcelo, o teu filho bem-amado!
— O meu único amparo moral, desde que os Romanos mataram o meu esposo! Tu ainda o viste. Mas eras pequenina quando o levaram daqui... Nunca mais soube dele, nunca mais! Nem sequer qual foi o seu fim, nem onde o enterraram!
A voz da senhora que falava endureceu um pouco e acrescentou:
— Por isso, minha filha, Marcelo tem uma dívida de sangue para com os Romanos!
A jovem ergueu-se.
— Eis o que me aflige ainda mais!
— Porquê? Não acreditas no destino? Que podes recear mais do que eu? O que está escrito terá de cumprir-se, queiras ou não queiras, soframos ou não!
— Não compreendo esse fatalismo.
O olhar da senhora iluminou-se.
— Escuta, Maria… Marcelo vem aí!
Levantou-se a jovem num sobressalto.
— Onde?
Baixo, quase num sussurro, olhos perdidos no espaço, a dama esclareceu:
— Algures. Mas vem aí. Pressinto-o mesmo à distância! Não descobres o mesmo? Não és mãe, Maria. Não podes sentir o que eu sinto!
Mas já a jovem, num impulso, a interrompia:
— Deixa-me ir ao seu encontro!
Num sinal negativo, a mãe de Marcelo abanou a cabeça.
— Não, Maria! Tu corres mais do que eu e chegarás a seu lado antes que eu o veja. E então... ambos se esquecerão desta pobre velha, que anseia, como tu, por ter notícias, embora saiba dominar-se! Não, Maria. Espera um pouco. Ele já vem perto. Não tardará!
Calou-se a dama. Mas o silêncio que as separou durou apenas alguns segundos. Já se distinguia o ruído de um cavalo correndo. Depois estacou. Marcelo desceu e entrou impetuosamente na sala onde as duas mulheres o esperavam. Correu para a mãe, beijou-a, mas logo a deixou para ir estreitar nos seus braços fortes a sua deliciosa, inquieta noiva. Com beça encostada ao peito largo do lusitano, Maria queixou-se:
— Como tardaste, Marcelo! Já estava em cuidado!
Ele tomando nas mãos a linda cabeça de fartos cabelos bem penteados, olhou-a, a fundo, nos olhos. A sua expressão era de amargura e a amargura soou também a sua voz:
— As notícias são péssimas! Cássio Longino tem vindo a destruir tudo por onde passa. É um homem rancoroso, mau, um monstro de ambição!
Serena, a mãe de Marcelo falou:
— Chegou talvez a nossa hora... Mas quem sabe se não terá chegado também a desse tal Cássio Longino?
Marcelo encheu o peito de ar, antes de responder:
— Tudo é possível agora, minha mãe. Mas uma coisa se torna urgente.
— O quê, meu filho?
— Pô-las a salvo antes que ele chegue!
A dama franziu as sobrancelhas. O seu rosto fechou-se numa expressão simultaneamente dura e dolorosa.
— Queres pôr-nos a salvo? Como?
Respirou de novo Marcelo, antes de responder.
— Mãe! Demorei-me, justamente, para encontrar o único meio de as livrar de Longino. Lembrei-me que o monte que nos deu a nossa Maria poderia talvez conservá-la agora longe de perigo.
Num grito, a jovem agarrou-se a Marcelo.
— Não quero separar-me de ti!
Mas a voz da velha senhora voltou a ouvir-se, serena.
— Talvez Marcelo tenha razão. Os homens não combatem com a mesma liberdade de espírito quando têm a seu lado a mulher que amam.
A jovem revoltou-se.
— E ele... ficará aqui, sozinho?
A mãe de Marcelo perguntou:
— Todo este povo, para ti, não representa nada?...
— Mas ele não é o chefe!
— O chefe é um velho e não tem filhos. Marcelo é o seu lugar-tenente. Não poderá agora abandoná-lo.
E acrescentou, voltando-se para o filho:
— Diz-nos onde se encontra o esconderijo que nos destinas, Marcelo, e eu própria conduzirei Maria até lá.
O jovem guerreiro levou uma das mãos à testa.
— Custa-me deixá-las partir sozinhas. Eles podem aparecer de um momento para o outro.
A mãe tornou:
— Por isso mesmo, deves ficar! Diz-me o caminho para chegar local que escolheste.
Marcelo fechou os punhos.
— Receio que não saibam encontrá-lo. É de difícil acesso e…
A velha senhora interrompeu-o, enérgica:
— Marcelo, diz-me o caminho antes que se faça tarde! É lá no cimo do monte?
— Sim. Mais ou menos no lugar onde encontrou Maria. Escute com cuidado…
E o jovem explicou em pormenor o difícil mas único caminho que levaria à salvação a mãe e a noiva.
Elas partiram por fim. Levavam poucos mantimentos e muitas apreensões.
Ainda não havia decorrido uma hora sobre a fuga de Maria e da mãe de Marcelo, quando o exército de Longino caiu sobre a pobre aldeia. A defesa estava entregue a um número inferior à centena.
 


Quanto aos romanos, chegavam aos cachos, passando do milhar. Travou-se a luta. Luta de desespero, da parte invadida. Luta de vida ou de morte. Talvez porque os lusitanos estavam decididos a vender cara a vida, não querendo entregar-se nem morrer sem causar danos, o combate prolongou-se mais do Cássio Longino esperava. O facto enervou o procônsul romano. Mandou redobrar de esforço e crueldade. Os lusitanos, porém, continuavam firmes, embora cada vez em menor número, dispostos a morrer matando o mais que pudessem. Todavia, já reduzidos a uma vintena, o chefe consentiu na entrega da aldeia e dos seus homens em troca de liberdade das mulheres. E a luta cessou, com grandes baixas também do lado do invasor.
A manhã já vinha quando o procônsul romano mandou enfileirar os dezasseis homens que restavam, para virem à sua presença. Um a um ele ia ouvindo e poupando a vida aos que possuíam bens que lhe dessem em troca. Depois de ouvi-los, Cássio Longino fazia a sua escolha. E um a um, iam passando esses lusitanos fortes de corpo e alma, mais amargurados ainda por estarem vivos mas vencidos, ante a figura odiada do chefe romano, escutando a sua sentença de vida ou de morte. Até que chegou a vez do jovem Marcelo.
Longino olhou pouco à vontade esse rosto pálido mas de olhar duro e firme que o causticava. Para disfarçar ou para se vingar dessa ousadia falou-lhe:
— Tu eras o subchefe. Para salvares a vida precisarias de grandes riquezas. E, segundo me informaram, pouco mais tens que a tua casa e uma dúzia de cabeças de gado.
Altivamente, Marcelo respondeu:
— A minha vida não está à venda, creio!
Longino sorriu felinamente:
— És pobre e orgulhoso?... Olha que o teu chefe pagou cara a ousadia de falar-me como grande senhor! Não só o mandei degolar, como fiquei com todos os seus haveres!
Marcelo retorquiu, rápido:
— O mesmo te acontecerá um dia!
Longino rangeu os dentes e sentiu desejo de ferir, de marcar cruelmente o seu inimigo. Sabia que a morte não o afligiria, porque era bravo. Mudou de táctica.
— Se não fosse o preço da tua vida, creio que não resistiria a fazer-te desaparecer, e já!
Marcelo surpreendeu-se.
— O preço? Que preço? Acabaste de afirmar — e é verdade — que pouco mais tenho que uma dúzia de cabeças de gado e a minha casa. Isto basta ao teu espírito ambicioso?
Cássio Longino riu com maldade. Depois sublinhou bem a frase que iria ferir Marcelo:
— Tu nem sabes dar valor ao tesouro que possuías!
O lusitano alarmou-se.
— Que tesouro?
— Amaia!
Marcelo, fora de si, gritou:
— Como sabes o seu nome?
Sorrindo sempre, Longino disse apenas:
— Foi ela.
— Ela?... Quando?
— Não grites, jovem louco!
— Quero saber quando te disse ela o seu nome!
— Ontem, quando chegámos... Ela ia a fugir...
Louco de dor e de fúria, Marcelo gritou mais:
— Onde a escondeste?
— Na minha tenda.
— Maldito! Não ouses tocar-lhe, porque te arrependerás!
Num requinte de cinismo, Longino vibrou o golpe maior.
— Amaia já não te pertence! A velha deu-ma em troca da tua vida; quando os meus homens as descobriram a caminho da montanha!
Quase possesso, Marcelo ia atirar-se ao procônsul, mas foi agarrado pelos soldados romanos. Alucinado, gritou-lhe:
— Mentes! Mentes, malvado! A minha mãe daria a vida por ela!
Sem alterar a voz, o romano tornou:
— E deu.
Os olhos de Marcelo abriram-se num ímpeto de loucura. Baixou a voz, tornando-a cava.
— Que dizes?
— O que ouviste. Depois de nos entregar a jovem Amaia, voltou a buscá-la, no mais aceso da nossa luta. Calcula que matou um dos guardas, essa velha de granito: libertou a jovem, e já iam de novo a fugir, quando foram descobertas. Os meus homens mataram a velha e teriam morto a outra se... se ela não me tivesse agradado tanto!...
Marcelo rugiu, agarrado pelos soldados:
— Maldito sejas enquanto viveres! Maldito sejas onde estiveres, seja na terra ou no mar!...
Enfadado já, Cássio Longino ordenou:
— Levem-no daqui!
Marcelo gritou de novo:
— Só depois de matar-te!
E, lutando, tentou libertar-se dos braços que o seguravam, na ânsia de desfazer o procônsul romano. Mas Longino gritou:
— Segurem-no bem! Parece um tigre!
De rastos, Marcelo foi levado da sala. Mas gritava ainda:
— Amaia nunca será tua! Sei que preferirá morrer! Sei! Compreendes?...
Como resposta, Longino ordenou em voz mal segura:
— Que se aproxime o que estava atrás desta fera que saiu. Vamos continuar! Tu? Não tens bens?
— Não.
— Pois serás degolado! O outro a seguir? Ah! Já sei... já me disseram… Tu és rico... Está bem... Ficarás preso até sairmos desta aldeia… O outro?
Um homem de meia-idade adiantou-se.
— O que tenho não te chega, decerto, porque não lhe sabes dar valor.
— Que possuis?
— Honra!
— Degolem-no! Agora o último. Já começo a estar cansado disto! Que tens para me dar em troca da tua vida?
Cerrando os dentes, o último homem da fileira dos prisioneiros declarava:
— Ódio! Só ódio para te dar! Mas esse é muito, muito!
Sem esperar mais, Longino ordenou:
— Degolem-no também!
E levantando-se da sua cadeira de espaldar, a cadeira do chefe aldeia, declarou:
— Vamos buscar Amaia e ver o que havemos de fazer dessa fera que foi subchefe do inimigo e deverá morrer! O ar aqui pesa-me... Sigamos para outras terras, quanto antes!
Quando Cássio Longino chegou à porta da tenda onde ficara Amaia vigiada por dois soldados, viu esta abandonada. Entrou nela e achou-a vazia. Alucinado, chamou os seus homens.
— Rebanho de imbecis! Onde está Amaia?
A medo, um dos soldados explicou:
— Quando trazíamos Marcelo, este conseguiu libertar-se e fugir para aqui. Então lutou contra nós quatro, ajudado pela rapariga. Dois dos meus camaradas morreram, outro está cego e eu... escapei porque viera buscar reforços...
Foi a vez de Longino rugir:
— Cambada de poltrões! Um homem desarmado vencer quatro soldados!... Para onde fugiram?... Vamos! Reúnam cinquenta homens e sigam-nos! Devem ter ido para a montanha!
Logo se formou o batalhão que iria buscar os fugitivos. A montanha silenciosa e austera era o objectivo. Mas a busca começou a tomar-se difícil. Longino gritou:
— Têm a certeza de que passaram por aqui?
Um dos soldados informou:
— Cássio Longino... Vi-os subir aquele escarpado à beira do precipício. Não vale a pena procurá-los. Não irão longe… porque por ali... mal vão!...
Gritou de novo, o procônsul:
— Mal vão, porquê?
— Porque encontrarão a morte entre os rochedos...
Mas a montanha silenciosa e austera deu abrigo aos fugitivos. Ali ficaram Marcelo e Amaia, lado a lado, corações batendo em uníssono, cheios de dor pela perda da que tudo sacrificara por eles. E os homens de Cássio Longino abandonaram a perseguição ao jovem casal e seguiram para outras terras, espalhando sempre terror e desolação. Mas a maldição caiu sobre Cássio Longino. Quando este, mais tarde, regressava ao seu país natal, encontrou a morte no mar, onde ficou sepultado com todas as riquezas que adquirira durante as lutas com os Lusitanos.
Entretanto, lá no alto da montanha silenciosa e austera, Marcelo e Amaia foram construindo, pedra a pedra, a sua casa. E os seus descendentes, dessa pequena casa fizeram um castelo — o castelo de Marvão — grito que ecoado pelas penedias e levado pelo vento chegou aos ouvidos dos que ficaram quando os soldados romanos diziam dos fugitivos:
— Mal vão! Mal vão!...
Esta é a lenda do castelo de Marvão, que chegou a ser pertença dos Mouros, mas que, finalmente, D. Sancho II conquistou, para o limpar da gente inimiga e dar de presente a Portugal.
De Lendas de Portugal, Gentil Marques, Lisboa, Círculo de Leitores, Lisboa, 1997 [1962], p.Volume II, pp. 159-166

Bom Dia Alentejo!
A alma que lhe escondida é tanta…
Foto: http://www.revista-b.com/edicao6/images/dossier-01/imagem1.jpg

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Bom Dia Alentejo, Marvão, a que Castelo de Marvão, a virilidade que lhe pariu a doçura


Está a antiquíssima vila de Marvão situada no plató que encima o mais alto cabeço da serra deste nome, cota de 862m., a serra de Hermênho lusitana, que os Romanos traduziram por Herminius Minor, a qual se levanta em escarpa viva, quase inacessível por todos os lados, com grande comandamento sobre a margem esquerda do rio Sever, a 0,8 Km a norte da ponte romana da Portagem, sobre esse rio, a 4 Km, a noroeste da Salada, 822, e a 12,5 Km a nor-nordeste da cidade de Portalegre, a 1º 45` 20`` de longitude leste e a 39º 24` 10`` da latitude norte.
Toda a população da vila de Marvão está dentro de uma vetusta medieval, composta de uma forte cidadela, com sua torre de menagem e uma cerca amuralhada, apoiada em várias torres, tudo em regular estado de conservação.
Dada a situação, a natureza e o grande valor militar da sua posição, quase inexpugnável, pelo alcantilado das encostas do monte, e os numerosos vestígios e achados das remotas épocas do neolítico e dos metais, é de presumir que na origem a fortaleza de Marvão tivesse consistido num castro de povoamento com o nome de Aramenha.
Fundada pelos Vetões, primeiros Hermínios Menores (maciços de S. Mamede, Serra Fria, da Salada, de Marvão e do Facho), coevos dos aborígenes dos Hermínios Maiores, constituía já uma grande e poderosa Citânia quando os Túrdulos-os-Novos, forçados a abandonar as terras da serra de Sintra, devido ao seu afundamento, vieram acolher-se, nos fins do século XI a. C., à protecção dos castros lusitanos. Eles deveriam ter contribuído muito para a prosperidade de Marvão.
Nos meados do século IX a. C., os Celtas e Celtiberos, descendo do planalto da Castela, ao longo do vale do Tejo, vieram estabelecer-se em Marvão, a que deram o nome de Medobriga, reservando o de Aramenha para a nova cidade que eles fundaram junto da margem esquerda do Sever, na orla sul da actual povoação de S. Salvador.
 

Os Romanos, que por sua vez, tomaram Medobriga no ano 44 a. C., remodelaram a fortaleza segundo a sua técnica castrense e constituíram nela uma forte base militar de ocupação e centro político e administrativo. Para a Aramenha dos Celtas reservaram a parte económica e industrial, pelo que passou também a designar-se por Medobriga.
A Medobriga romana, mercê da robustez e valor militar da fortaleza, e da bravura indómita dos seus moradores, resistiu sempre aos ataques dos Vândalos, Alanos e Mouros, conservando sempre a independência, até que em 770 foi tomada por surpresa pelo mouro Maruan ou Marvan, senhor de Coimbra, que, depois do massacre dos seus habitantes, mandou repovoar a vila e remodelar a fortaleza, dando-lhe o seu nome.
D. Afonso Henriques a tomou aos Mouros, em 1166, e reconhecendo o seu enorme valor militar, como posição forte e situação estratégica, para a defesa contra os Mouros e Leoneses, mandou logo restaurar a fortaleza moura. Instituiu ali um couto para melhor assegurar a defesa e povoamento e fez Marvão vila e cabeça do concelho.
D. Sancho II mandou também reedificar e ampliar a fortaleza de Marvão, dando-lhe o primeiro foral em 1226.
D. Dinis mandou remodelar o castelo e torre de menagem e construir uma nova cerca de muralhas em 1299. D. Manuel mandou também restaurar a fortaleza medieval de D. Dinis, concedendo novo foral à vila, em 1 de Junho de 1512, em Lisboa.
Durante as guerras de Restauração foram restauradas as fortificações medievais de Marvão e fizeram-se algumas obras segundo o sistema abaluartado, designadamente os fortins das Portas da Vila e da Ponte do Ródão, ainda em regular estado de conservação, ficando a constituir uma das mais fortes praças para defesa da nossa fronteira com a Espanha.
Toda a fortaleza está em regular estado de conservação, tendo-se feito modernamente muitas obras de restauro no castelo, por conta da Liga dos Amigos do Castelo de Marvão; e dentro da vila existem ainda duas cisternas, uma das quais podia fornecer água para seis meses à guarnição da fortaleza e habitantes da vila, e outra, mais pequena, de água nativa.
Fonte: Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, General João de Almeida