sábado, 3 de janeiro de 2015

Bom Dia Alentejo, Indumentária Alentejana, Alentejo, a uma segunda pele da alma que gente

 
O modo de vestir das populações rurais do Alentejo – deste meu Alentejo e vosso - foi uma das características mais curiosas, mais típicas do povo alentejano. O traje tornava inconfundível o homem do campo, em qualquer aglomerado de gente, por maior que fôsse-feira ou romaria.
Resistindo à influência da moda, cujo despotismo, sobretudo nos tempos correntes, todos nós conhecemos, o vestuário do camponês alentejano manteve-se inalterável, na sua essência pelo menos, durante largos anos, dando a impressão de que permaneceria sempre invulnerável à acção caprichosa da moda, e à influência dos usos e costumes de outros povos.
O vestuário do alentejano – era assim mes compadres e que minhas comadres, assim – uma espécie de cartão de identidade, uma certidão de proveniência, um documento que identificava o respectivo portador sob o ponto de vista provincial, em qualquer parte que aparecesse.
O cosmopolitismo da vida moderna, devido à facilidade e rapidez de comunicação, determinou o estreitamento e frequência de relações entre as populações mesmo afastadas, resultando deste facto a penetração de costumes alheios e a consequente alteração dos próprios.
Esta terá sido, a nosso ver, uma das razões por que o nosso Alentejo tem perdido um pouco o seu característico individualismo sob o ponto de vista da indumentária. (…)

Falemos primeiro do vestuário de trabalho.
Os rurais alentejanos, ainda no 3.º quartel do séc. XIX usavam calção de briche ou de tripe, polainas de saragoça, altas, chegando quási ao joelho, abotoadas do lado de fora com botões numerosos, de pouco valor. Vestiam camisa branca, feita de pano de fabrico caseiro, tendo o peitilho mais ou menos rendilhado, os ombros com sua bordadura e às preguinhas.
O colarinho era alto – assim minhas comadres e que mes compades –, com duas ou quatro casas, onde entravam os botões, ordinariamente de prata o que não é para admirar, visto que ainda então a indústria e venda de jóias de pechisbeque se não tinha desenvolvido. Os botões dos punhos eram igualmente de prata, com corrente.
Por cima da camisa usavam o colete de tecido escuro (surrebeca em geral) e a clássica jaqueta, chamada também véstia.
O chapéu – aquele enorme chapéu alentejano – era o principal distintivo do camponês do Alentejo.
Grande – assim compadres e que minhas comadres – com suas abas enormes recurvadas, preto, redondo, colossal, o chapéu tinha ainda como acessório uma grande borla fixa, o portador colocava ao lado esquerdo, quando fazia uso dele, e da qual muito se ufanava.

No tempo invernoso usavam, como hoje ainda, para se defenderem do frio e da chuva, os safões, o pelico, espécie de colete de pele com todo o pêlo, sem botões nem mangas e de enfiar pela cabeça; e finalmente uma outra pele presa à cintura por correias e destinada a proteger as nádegas.
Por cima de tudo usavam um capote – assim pois estou dizendo a vossemecês – ainda hoje bastante frequente, com mangas curtas e apenas um cabeção. Os ganadeiros – pois assim minha gente -, especialmente os guardas de gado lanígero, mais expostos às inclemências do tempo, traziam, como agora ainda em alguns pontos, samarra de pele de ovelha com o pêlo conservado.
Um dos acessórios do vestuário era a cinta, larga e comprida faixa de algodão, terminando em franjas nas duas extremidades, que se enrolavam amplamente em volta da cintura, prendendo a extremidade livre de modo que a franja pendesse ao lado.
O traje de festa, à parte o calção, as polainas e o chapéu, sofreu mais profunda transformação do que o do trabalho, pois o de hoje pouco tem do que do outro tempo.

Constava este de camisa branca engomada com peitilho vistoso, de renda; colete rameado ou liso, jaqueta com alamares de prata – 3 pares em geral - ; calção de tripe duma bela cor azul, muito vistoso, com duas abotoaduras constituídas por grande número de moedas de prata que iam do joelho à cinta, fivelas de prata na parte inferior do calção; polainas escuras, de briche, abotoadas, com moedas de prata, em toda a altura, excepto na parte superior em que ficavam propositadamente desabotoadas para se poderem entrever as meias brancas; ligas vermelhas segurando as polainas, com cordões de outra cor pendendo à frente.
Entre a cinta, que era de merino, (ou cor de vinho ou encarnada) e o colete, era entalado à frente um lenço, ordinariamente de seda, vistoso e flamante.
Os botões do colarinho e dos punhos eram de oiro – como estais lendo mes compadres e que minhas comadres, de oiro – como competia ao traje de gala.
Como cúpula desta vistosa indumentária, via-se o clássico chapéu redondo que pouco diferia do descrito.
Em certas solenidades era indispensável o uso da capa, vistosa peça de particular apreço. Era de pano azul escuro, farta, rodada e bastante comprida. Na gola, tinha alamares de prata. Algumas eram forradas, pelo menos nas orlas da frente. Também se usavam capas de briche escuro.
Seria curioso acompanhar a lenta evolução da indumentária masculina, desde as calças de alçapão, imediatas sucessoras dos calções, até aos nossos dias: mas vai longo este, por isso ficamos por aqui.
E foi assim mes compadres e que minhas comadres, e que foi assim pois que vos o digo, Manuel Subtil, Indumentária rural do Alentejo, Revista Casa do Alentejo, 194(?).