Chama se a esta terra
o Monte da Pedra pela notabelidade de duas pedras, que estão no seu lemite;
huma chama se o Penedo Gordo, que está junto a esta terra na distancia de cento
e cincoenta passos pouco mais ou menos, ahonde os moradores deste povo ajuntão
no Verão todo o pão em palha, e ali o fabricam, e malhão com muito commodo,
porque podem no mesmo tempo andar seis lavradores tratando separadamente cada hum do seu pam.
A outra pedra chama se a Lagem de Santo Estevão, a qual fica distante deste
povo a seixta parte de huma legoa para a parte do sul; esta está em huma planice
com alguñs cabeços pequenos de redor inclinado para o sul; porem he tão plano,
que porqualquer parte se pode entrar, e sahir della; tem de comprimento cento e
septenta passos pouco mais ou menos; e de largura tem noventa passos, pouco
mais ou menos.
Para os seus naturais exagerarem a grandeza, e singularidade desta pedra, ou
lagem, dizem, que se podem em hum mesmo tempo fazer em ella quatorze malhas.
Chama se lhe a Lagem de Santo Estevão, porque está perto de hum cazarão, que
era antigamente ermida de Santo Estevão, que se acha hoje colocado na igreja
desta freguesia.

Foto:
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Antigamente – estamos a
falar da igreja matriz actual de Monte da Pedra - era esta igreja a do lugar do
Sourinho, e o orago era Nossa Senhora com o titolo de Santa Maria; porem
dezertarão os moradores aquelle lugar, que dista desta terra para o poente meya
legoa, ahonde ahinda hoje existem os fundamentos dos edeficios, que estão em
terra da sagrada relegião de Malta.
A razão, e motivo, que se dis, tiverão os moradores para dezempararem aquelle lugar,
e povoaçam do Sourinho, forão humas fantasmas, que tão bem se diz ali apparecião,
e intimidados dellas os moradores, forão obrigados a dezemparar aquelle lugar,
e constetuir a freguezia em este Monte da Pedra, em huma ermida de Santiago, que
aqui estava, e por isso ahinda hoje os moradores conservão a imagem de Santiago
em o altar mor ao lado direito.
Neste lugar do Sourinho, se diz, moravão, e assistião muitos cavalleiros, que
se chamavão os cavalleiros da Espora Dourada, os quais, por tradicão se diz,
que se extinguirão, e morrerão na seguida, que fizerão a El Rey Dom Sebastiam
para as guerras: porem como com os incendios se consumirão os livros,e papeis
antigos, não ha hoje outra certeza mais que tão somente a tradição; e a pouca
curiozidade faz muitas vezes ficar as coizas em esquecimento.

Foto: 9012238_bytMf
Fonte: ANTT, Memórias Paroquiais, vol. 24, nº
201, pp. 1507 a 116]