domingo, 9 de março de 2014

Bom Dia Alentejo, Marvão, a Lenda do Castelo de Marvão, O céu, o puro lar, a Casa é mesmo no topo

 

Caía a tarde de mansinho.
O sol punha rabiscos de fogo no firmamento azul-cinzento.
No vale, onde algumas casas pequenas pareciam de brinquedo, vistas do alto do monte, uma jovem tocava harpa de um modo quase distraído. O seu rosto de belas feições gritava sem voz a aflição que a dominava. Perto, uma dama de meia-idade tecia. Também a sua expressão era triste, apreensiva...
De súbito, a jovem parou de tocar, deixando incompleta a ária de amor e queixume que até aí nunca deixara em meio. Gemeram as cordas da harpa, num soluçar dolente, ao abandono dos dedos da jovem. A dama de meia-idade ergueu a cabeça. Fitou a donzela e, numa voz bondosa, perguntou:
— Que tens, Maria? Porque não continuas?
A jovem suspirou. A sua voz soou baixa e fraca.
— Não posso! Perdoa-me, mas não posso!
Sorriu a dama, num sorriso que lembrava lágrimas.
— Sei o que te aflige: a demora de Marcelo. Mas pretenderás tu amá-lo mais do que eu, que sou sua mãe?
Novo suspiro de Maria, agora mais forte. Torceu as mãos, como a tentar dominar-se. Mas logo se levantou do cantinho onde estivera tocando e veio sentar-se aos pés da sua protectora. Deitou-lhe a cabeça no colo. Queria atordoar-se, esquecer que o tempo corria! A senhora acariciou-lhe os cabelos. Voltou a falar-lhe:
— Tem calma! Assim nada conseguirás. E torno a lembrar-te que não o amas mais do que eu...
Maria ergueu o olhar. Olhos rasos de lágrimas.
— Queres-lhe muito, bem sei. Tanto como eu. Mas eu e tu somos diferentes!
— Diferentes em quê?
— No sangue que corre em nossas veias! O meu não é igual ao teu. O meu não vem desse glorioso Viriato, símbolo deste povo não menos glorioso!
Voltou a senhora a acariciar os cabelos da jovem, sentada a seus pés.
— Criei-te de pequenina, minha filha, e ensinei-te a seres forte como todos os Lusitanos. Terás, pois, de ser como nós!
O nervosismo punha um estrangulamento na voz da jovem Maria.
— Sei lá qual será a minha origem! Grega?... Romana?...
— A tua origem, agora, pouco importa! Quando te encontrei abandonada no sopé desta montanha que se ergue à nossa frente, não quis saber quem eras, nem donde terias vindo. Eras uma criança que chorava com fome e tremia de frio!
Com arrebatamento, a jovem ajuntou:
— E hoje sou a futura esposa de Marcelo, o teu filho bem-amado!
— O meu único amparo moral, desde que os Romanos mataram o meu esposo! Tu ainda o viste. Mas eras pequenina quando o levaram daqui... Nunca mais soube dele, nunca mais! Nem sequer qual foi o seu fim, nem onde o enterraram!
A voz da senhora que falava endureceu um pouco e acrescentou:
— Por isso, minha filha, Marcelo tem uma dívida de sangue para com os Romanos!
A jovem ergueu-se.
— Eis o que me aflige ainda mais!
— Porquê? Não acreditas no destino? Que podes recear mais do que eu? O que está escrito terá de cumprir-se, queiras ou não queiras, soframos ou não!
— Não compreendo esse fatalismo.
O olhar da senhora iluminou-se.
— Escuta, Maria… Marcelo vem aí!
Levantou-se a jovem num sobressalto.
— Onde?
Baixo, quase num sussurro, olhos perdidos no espaço, a dama esclareceu:
— Algures. Mas vem aí. Pressinto-o mesmo à distância! Não descobres o mesmo? Não és mãe, Maria. Não podes sentir o que eu sinto!
Mas já a jovem, num impulso, a interrompia:
— Deixa-me ir ao seu encontro!
Num sinal negativo, a mãe de Marcelo abanou a cabeça.
— Não, Maria! Tu corres mais do que eu e chegarás a seu lado antes que eu o veja. E então... ambos se esquecerão desta pobre velha, que anseia, como tu, por ter notícias, embora saiba dominar-se! Não, Maria. Espera um pouco. Ele já vem perto. Não tardará!
Calou-se a dama. Mas o silêncio que as separou durou apenas alguns segundos. Já se distinguia o ruído de um cavalo correndo. Depois estacou. Marcelo desceu e entrou impetuosamente na sala onde as duas mulheres o esperavam. Correu para a mãe, beijou-a, mas logo a deixou para ir estreitar nos seus braços fortes a sua deliciosa, inquieta noiva. Com beça encostada ao peito largo do lusitano, Maria queixou-se:
— Como tardaste, Marcelo! Já estava em cuidado!
Ele tomando nas mãos a linda cabeça de fartos cabelos bem penteados, olhou-a, a fundo, nos olhos. A sua expressão era de amargura e a amargura soou também a sua voz:
— As notícias são péssimas! Cássio Longino tem vindo a destruir tudo por onde passa. É um homem rancoroso, mau, um monstro de ambição!
Serena, a mãe de Marcelo falou:
— Chegou talvez a nossa hora... Mas quem sabe se não terá chegado também a desse tal Cássio Longino?
Marcelo encheu o peito de ar, antes de responder:
— Tudo é possível agora, minha mãe. Mas uma coisa se torna urgente.
— O quê, meu filho?
— Pô-las a salvo antes que ele chegue!
A dama franziu as sobrancelhas. O seu rosto fechou-se numa expressão simultaneamente dura e dolorosa.
— Queres pôr-nos a salvo? Como?
Respirou de novo Marcelo, antes de responder.
— Mãe! Demorei-me, justamente, para encontrar o único meio de as livrar de Longino. Lembrei-me que o monte que nos deu a nossa Maria poderia talvez conservá-la agora longe de perigo.
Num grito, a jovem agarrou-se a Marcelo.
— Não quero separar-me de ti!
Mas a voz da velha senhora voltou a ouvir-se, serena.
— Talvez Marcelo tenha razão. Os homens não combatem com a mesma liberdade de espírito quando têm a seu lado a mulher que amam.
A jovem revoltou-se.
— E ele... ficará aqui, sozinho?
A mãe de Marcelo perguntou:
— Todo este povo, para ti, não representa nada?...
— Mas ele não é o chefe!
— O chefe é um velho e não tem filhos. Marcelo é o seu lugar-tenente. Não poderá agora abandoná-lo.
E acrescentou, voltando-se para o filho:
— Diz-nos onde se encontra o esconderijo que nos destinas, Marcelo, e eu própria conduzirei Maria até lá.
O jovem guerreiro levou uma das mãos à testa.
— Custa-me deixá-las partir sozinhas. Eles podem aparecer de um momento para o outro.
A mãe tornou:
— Por isso mesmo, deves ficar! Diz-me o caminho para chegar local que escolheste.
Marcelo fechou os punhos.
— Receio que não saibam encontrá-lo. É de difícil acesso e…
A velha senhora interrompeu-o, enérgica:
— Marcelo, diz-me o caminho antes que se faça tarde! É lá no cimo do monte?
— Sim. Mais ou menos no lugar onde encontrou Maria. Escute com cuidado…
E o jovem explicou em pormenor o difícil mas único caminho que levaria à salvação a mãe e a noiva.
Elas partiram por fim. Levavam poucos mantimentos e muitas apreensões.
Ainda não havia decorrido uma hora sobre a fuga de Maria e da mãe de Marcelo, quando o exército de Longino caiu sobre a pobre aldeia. A defesa estava entregue a um número inferior à centena.
 


Quanto aos romanos, chegavam aos cachos, passando do milhar. Travou-se a luta. Luta de desespero, da parte invadida. Luta de vida ou de morte. Talvez porque os lusitanos estavam decididos a vender cara a vida, não querendo entregar-se nem morrer sem causar danos, o combate prolongou-se mais do Cássio Longino esperava. O facto enervou o procônsul romano. Mandou redobrar de esforço e crueldade. Os lusitanos, porém, continuavam firmes, embora cada vez em menor número, dispostos a morrer matando o mais que pudessem. Todavia, já reduzidos a uma vintena, o chefe consentiu na entrega da aldeia e dos seus homens em troca de liberdade das mulheres. E a luta cessou, com grandes baixas também do lado do invasor.
A manhã já vinha quando o procônsul romano mandou enfileirar os dezasseis homens que restavam, para virem à sua presença. Um a um ele ia ouvindo e poupando a vida aos que possuíam bens que lhe dessem em troca. Depois de ouvi-los, Cássio Longino fazia a sua escolha. E um a um, iam passando esses lusitanos fortes de corpo e alma, mais amargurados ainda por estarem vivos mas vencidos, ante a figura odiada do chefe romano, escutando a sua sentença de vida ou de morte. Até que chegou a vez do jovem Marcelo.
Longino olhou pouco à vontade esse rosto pálido mas de olhar duro e firme que o causticava. Para disfarçar ou para se vingar dessa ousadia falou-lhe:
— Tu eras o subchefe. Para salvares a vida precisarias de grandes riquezas. E, segundo me informaram, pouco mais tens que a tua casa e uma dúzia de cabeças de gado.
Altivamente, Marcelo respondeu:
— A minha vida não está à venda, creio!
Longino sorriu felinamente:
— És pobre e orgulhoso?... Olha que o teu chefe pagou cara a ousadia de falar-me como grande senhor! Não só o mandei degolar, como fiquei com todos os seus haveres!
Marcelo retorquiu, rápido:
— O mesmo te acontecerá um dia!
Longino rangeu os dentes e sentiu desejo de ferir, de marcar cruelmente o seu inimigo. Sabia que a morte não o afligiria, porque era bravo. Mudou de táctica.
— Se não fosse o preço da tua vida, creio que não resistiria a fazer-te desaparecer, e já!
Marcelo surpreendeu-se.
— O preço? Que preço? Acabaste de afirmar — e é verdade — que pouco mais tenho que uma dúzia de cabeças de gado e a minha casa. Isto basta ao teu espírito ambicioso?
Cássio Longino riu com maldade. Depois sublinhou bem a frase que iria ferir Marcelo:
— Tu nem sabes dar valor ao tesouro que possuías!
O lusitano alarmou-se.
— Que tesouro?
— Amaia!
Marcelo, fora de si, gritou:
— Como sabes o seu nome?
Sorrindo sempre, Longino disse apenas:
— Foi ela.
— Ela?... Quando?
— Não grites, jovem louco!
— Quero saber quando te disse ela o seu nome!
— Ontem, quando chegámos... Ela ia a fugir...
Louco de dor e de fúria, Marcelo gritou mais:
— Onde a escondeste?
— Na minha tenda.
— Maldito! Não ouses tocar-lhe, porque te arrependerás!
Num requinte de cinismo, Longino vibrou o golpe maior.
— Amaia já não te pertence! A velha deu-ma em troca da tua vida; quando os meus homens as descobriram a caminho da montanha!
Quase possesso, Marcelo ia atirar-se ao procônsul, mas foi agarrado pelos soldados romanos. Alucinado, gritou-lhe:
— Mentes! Mentes, malvado! A minha mãe daria a vida por ela!
Sem alterar a voz, o romano tornou:
— E deu.
Os olhos de Marcelo abriram-se num ímpeto de loucura. Baixou a voz, tornando-a cava.
— Que dizes?
— O que ouviste. Depois de nos entregar a jovem Amaia, voltou a buscá-la, no mais aceso da nossa luta. Calcula que matou um dos guardas, essa velha de granito: libertou a jovem, e já iam de novo a fugir, quando foram descobertas. Os meus homens mataram a velha e teriam morto a outra se... se ela não me tivesse agradado tanto!...
Marcelo rugiu, agarrado pelos soldados:
— Maldito sejas enquanto viveres! Maldito sejas onde estiveres, seja na terra ou no mar!...
Enfadado já, Cássio Longino ordenou:
— Levem-no daqui!
Marcelo gritou de novo:
— Só depois de matar-te!
E, lutando, tentou libertar-se dos braços que o seguravam, na ânsia de desfazer o procônsul romano. Mas Longino gritou:
— Segurem-no bem! Parece um tigre!
De rastos, Marcelo foi levado da sala. Mas gritava ainda:
— Amaia nunca será tua! Sei que preferirá morrer! Sei! Compreendes?...
Como resposta, Longino ordenou em voz mal segura:
— Que se aproxime o que estava atrás desta fera que saiu. Vamos continuar! Tu? Não tens bens?
— Não.
— Pois serás degolado! O outro a seguir? Ah! Já sei... já me disseram… Tu és rico... Está bem... Ficarás preso até sairmos desta aldeia… O outro?
Um homem de meia-idade adiantou-se.
— O que tenho não te chega, decerto, porque não lhe sabes dar valor.
— Que possuis?
— Honra!
— Degolem-no! Agora o último. Já começo a estar cansado disto! Que tens para me dar em troca da tua vida?
Cerrando os dentes, o último homem da fileira dos prisioneiros declarava:
— Ódio! Só ódio para te dar! Mas esse é muito, muito!
Sem esperar mais, Longino ordenou:
— Degolem-no também!
E levantando-se da sua cadeira de espaldar, a cadeira do chefe aldeia, declarou:
— Vamos buscar Amaia e ver o que havemos de fazer dessa fera que foi subchefe do inimigo e deverá morrer! O ar aqui pesa-me... Sigamos para outras terras, quanto antes!
Quando Cássio Longino chegou à porta da tenda onde ficara Amaia vigiada por dois soldados, viu esta abandonada. Entrou nela e achou-a vazia. Alucinado, chamou os seus homens.
— Rebanho de imbecis! Onde está Amaia?
A medo, um dos soldados explicou:
— Quando trazíamos Marcelo, este conseguiu libertar-se e fugir para aqui. Então lutou contra nós quatro, ajudado pela rapariga. Dois dos meus camaradas morreram, outro está cego e eu... escapei porque viera buscar reforços...
Foi a vez de Longino rugir:
— Cambada de poltrões! Um homem desarmado vencer quatro soldados!... Para onde fugiram?... Vamos! Reúnam cinquenta homens e sigam-nos! Devem ter ido para a montanha!
Logo se formou o batalhão que iria buscar os fugitivos. A montanha silenciosa e austera era o objectivo. Mas a busca começou a tomar-se difícil. Longino gritou:
— Têm a certeza de que passaram por aqui?
Um dos soldados informou:
— Cássio Longino... Vi-os subir aquele escarpado à beira do precipício. Não vale a pena procurá-los. Não irão longe… porque por ali... mal vão!...
Gritou de novo, o procônsul:
— Mal vão, porquê?
— Porque encontrarão a morte entre os rochedos...
Mas a montanha silenciosa e austera deu abrigo aos fugitivos. Ali ficaram Marcelo e Amaia, lado a lado, corações batendo em uníssono, cheios de dor pela perda da que tudo sacrificara por eles. E os homens de Cássio Longino abandonaram a perseguição ao jovem casal e seguiram para outras terras, espalhando sempre terror e desolação. Mas a maldição caiu sobre Cássio Longino. Quando este, mais tarde, regressava ao seu país natal, encontrou a morte no mar, onde ficou sepultado com todas as riquezas que adquirira durante as lutas com os Lusitanos.
Entretanto, lá no alto da montanha silenciosa e austera, Marcelo e Amaia foram construindo, pedra a pedra, a sua casa. E os seus descendentes, dessa pequena casa fizeram um castelo — o castelo de Marvão — grito que ecoado pelas penedias e levado pelo vento chegou aos ouvidos dos que ficaram quando os soldados romanos diziam dos fugitivos:
— Mal vão! Mal vão!...
Esta é a lenda do castelo de Marvão, que chegou a ser pertença dos Mouros, mas que, finalmente, D. Sancho II conquistou, para o limpar da gente inimiga e dar de presente a Portugal.
De Lendas de Portugal, Gentil Marques, Lisboa, Círculo de Leitores, Lisboa, 1997 [1962], p.Volume II, pp. 159-166

Bom Dia Alentejo!
A alma que lhe escondida é tanta…
Foto: http://www.revista-b.com/edicao6/images/dossier-01/imagem1.jpg

sexta-feira, 7 de março de 2014

Bom Dia Alentejo, Topónimo de Seda, A Lenda do Castelo de Arminho, aos amados de um amor desencontrado

 
Foi ao fim da tarde. Corria o ano de 1160 e era rei de Portugal D. Afonso Henriques. A conquista de Alcácer tinha-lhe valido grande repercussão nos reinos de Leão e Castela e até por terras de sarracenos. Assim, o jovem rei D. Fernando II de Leão pedira uma aliança com o rei português e para esse fim encontraram-se em Celanova. As coisas correram de boa feição e, satisfeito com os resultados, D. Afonso Henriques voltou ao seu castelo, ordenando que viesse à sua presença o jovem D. Nuno Mendes.
Solícito, o cavaleiro apressou-se a apresentar-se ante o seu rei.
— Senhor, disseram-me que precisais falar-me.
O rei sorriu, mostrando a sua satisfação.
— É certo. Preciso dizer-vos que nem tudo são lutas neste mundo.
O jovem cavaleiro olhou D. Afonso Henriques. Um íntimo pensamento atravessou-lhe o cérebro como um relâmpago, enchendo-o de luz, mas, como relâmpago também, essa luz desapareceu, deixando tudo mais negro à sua volta. Como o rei silenciasse, ele, espiando-lhe a expressão, arriscou:
— Gostaria de poder compreender-vos, Senhor!
O rei tornou então:
— Iremos ter alguns anos de paz com Leão! 
Aliviado com o rumo da conversa, o jovem voltou a perguntar:
— Achais que isso será um facto?
O rei sorriu numa expressão franca:
— Acompanhaste-me a Celanova, não é verdade?
— Essa honra me deste!
— Porque a merecíeis! E sabeis também que ali fui para avistar-me com esse jovem e ardoroso D. Fernando de Leão.
— Os tratos foram secretos, mas falou-se muito deles entre a cavalaria...
— E que vos pareceu a conclusão a que chegámos?
O jovem mostrou-se embaraçado.

— Senhor, só vós sabeis o acordo que fizestes. Nós apenas aventámos suposições...
— Pois ireis saber o que ficou estipulado.
— Grande honra me concedeis, Senhor.
— Ouvi, então: a D. Fernando II, filho mais novo de D. Afonso VII, coube por determinação paterna o governo de Leão, Estremadura e Galiza. Ora, a fama das nossas vitórias chegou a Leão e Fernando veio solicitar-me a aliança de Portugal.
— Aliança que aceitastes...
— Sim... com uma condição. Sabeis qual é?
— Não, meu senhor!
O rei olhou intencionalmente o jovem cavaleiro. Depois, com voz firme e pausada, essa voz que tornava as suas ordens indiscutíveis, elucidou:
— A condição é esta: o casamento de Fernando de Leão com a infanta Dona Urraca, filha legítima do rei de Portugal.

A palidez de D. Nuno tornou-se evidente. Os seus belos olhos abriram-se numa expressão de assombro. Murmurou quase, ao perguntar:
— D. Fernando e Dona Urraca irão casar-se?
D. Afonso Henriques tomou uma expressão enérgica.
— Que encontrais de estranho nesse facto? Não é ele rei, jovem e poderoso?
D. Nuno mordeu os lábios e arriscou:
— Mas... Dona Urraca...
O rei interrompeu solene:
— ... é minha filha, bela e prima direita de seu futuro esposo. Que encontrais de mal nessa união?

O jovem cavaleiro, cada vez mais pálido, não encontrou resposta. Mas o rei insistiu:
— Dizei, D. Nuno Mendes...
— Senhor... vossa filha Dona Urraca... é ainda tão jovem...
— Decerto! Mas se o inconveniente é só esse, posso afirmar-vos que Dona Urraca só casará daqui a cinco anos. Mas desde já ficarão prometidos. Assim o quero!
D. Nuno encontrou audácia para sorrir.
— E vós podereis querer, meu Senhor!
— Sim, posso! Dona Urraca faz-se mulher e é linda! Quando menos o esperar pode alguém apossar-se do seu coração.
— Mas vós sois rei!
— Ficaria desgostoso se tivesse de a ferir, impondo-lhe uma vontade que sei ser para ela sagrada!
Tristemente, o jovem murmurou: 
— D. Urraca é demasiadamente dócil para os tempos duros que atravessamos!
O rei português sorriu.
— Achais isso? Pois eu penso que uma mulher nunca será demasiadamente dócil.
— Que Deus proteja a Senhora Dona Urraca!
— Há-de proteger! Seu primo é um homem que sabe agradar às mulheres. E, dessa união, muito de proveitoso pode surgir para Portugal.
Decerto que esse casamento poderá assegurar a paz com Leão...
— E o entendimento necessário para nos ajudarmos mutuamente na dilatação dos nossos territórios, à custa dos sarracenos!
Quase acabrunhado, o cavaleiro D. Nuno anuiu:
— Assim é, meu senhor!
O rei sorriu numa franca expressão.
— Parece que esta união vos não alegra, D. Nuno! Porquê?
Um tanto embaraçado, o jovem respondeu:
— Senhor! O que fizerdes, fareis por bem! Portanto, se essa aliança vos agrada, para maior glória de Portugal, eu me congratulo convosco, Senhor!
A voz do rei tornou-se menos imperiosa.
— Ainda bem que compreendestes! Sabia que poderia continuar a contar com a vossa confiança.
— E porque não havíeis de contar?
O rei tornou-se quase irónico.
— D. Nuno Mendes, eu já tive vinte anos. Sei o que pensava e como pensava. E digo-vos — pela muita estima que vos tenho — que eu teria reagido com menos prudência... Mas conto convosco!
— Podeis sempre contar comigo, Senhor!
— Assim o espero. Ide vós mesmo dar esta nova a minha filha Dona Urraca.
Os belos olhos do jovem cavaleiro voltaram a abrir-se, mas desta vez numa súplica:
— Senhor!...
Enérgico, o rei cortou-lhe a palavra:
— Ide! Assim o quero! Só vós podereis dominar esses tenros treze anos...
E como o cavaleiro continuasse a olhá-lo, desta vez numa súplica muda, D. Afonso Henriques endureceu mais a voz:
— Ide! Porque esperais?
O jovem arriscou:
— Tanto me pede a vossa confiança?
— A pátria pede-vos a vida. Eu peço-vos a felicidade de Dona Urraca.
— Oh, Senhor... se assim fosse!...
— Só vós sabereis prepará-la para que se cumpra a minha promessa. E agora ide sem demora! As feridas devem curar-se enquanto quentes...

 
Quando a jovem infanta desceu ao jardim, por ordem expressa de seu pai, ficou perplexa por se encontrar na frente de D. Nuno Mendes. Perguntou, não escondendo a sua ansiedade:
— Vós? Mas porquê, a estas horas e com o consentimento de meu pai?
Beijando-lhe as pontas dos dedos com ternura, o jovem cavaleiro patenteou, na voz e na expressão do rosto, toda a tristeza que lhe ia na alma.
— Senhora! Morreram as nossas fugas pelo jardim em noites de luar... As nossas juras de amor trocadas em segredo não têm mais razão de existir... As nossas interrogações sobre o futuro serão desnecessárias, porque o futuro veio bater-nos à porta!...
A jovem infanta ficou ainda mais inquieta.
— Meu pai descobriu que nos amamos?
D. Nuno Mendes respondeu, tentando serenidade:
— Creio que sim… mas não sei como isso aconteceu...
— Então... ele consente?...
A expressão do jovem cavaleiro tornou-se esfíngica.
— O senhor D. Afonso Henriques, nosso rei e vosso pai, tem os seus planos, e pediu-me que fosse eu próprio a transmitir-vos o que houve por bem decidir.
A jovem infanta mostrou-se assustada.
— D. Nuno! Dizei-me depressa o que dedidiu meu pai!...
— Que em Celanova, donde regressámos, ficou assente com o rei de Leão, Galiza e Estremadura que vós, Senhora Dona Urraca, filha do rei de Portugal, sereis esposa de vosso primo!

A infanta empalideceu. No seu rosto de menina surgiu uma expressão de revolta.
— Não! Não quero!
D. Nuno tocou-lhe ao de leve numa das mãos:
— Suplico-vos! Acalmei-vos, minha bela infanta! O que está decidido não terá discussão, bem o sabeis! Este acordo — pede-me vosso pai para vos transmitir — será óptimo para o nosso reino e o de Leão!
A boca bem desenhada da infanta de Portugal teve um pequeno trejeito de choro. A sua voz soou lamentosa:
— E eu, D. Nuno? Eu... não conto?
Profunda e quente, a voz do jovem cavaleiro afirmou:
— Contais, sim! Vós sereis feliz!
— Como... se não amo quem me vão dar por esposo?
— Acabareis por amá-lo. Lembrais-vos ainda do vosso primo, o rei de Leão?
— Vi-o há tanto tempo... e eu era tão pequenina...
— Pois deveis vê-lo agora. Todas as damas casadoiras aspiram a um olhar seu. Sossegai, pois! Haveis de amá-lo… e ele vos amará!
— E vós?
— Encontrarei repouso nas lutas que irão seguir-se contra os infiéis.
Os olhos da bela infanta inundaram-se de lágrimas.
— Oh, D. Nuno Mendes, meu amigo! Como podeis dizer-me tais coisas?! Acreditais que irei esquecer-vos?
— Assim é preciso.
— Porquê?
— Para bem de Portugal e...
A infanta interrompeu o cavaleiro:
— ... e para meu bem?
— Assim o creio!
Ela meneou a cabeça.
— Vereis, D. Nuno, o que o futuro dirá ao mundo! Porém conheço meu pai e sei que, se é essa a sua vontade, só teremos que obedecer!
Beijando respeitosamente os finos dedos da infanta de Portugal, D. Nuno exclamou solene:
— Mil perdões, Senhora!
Ela admirou-se.
— De quê?
— Da forma pouco calorosa como vos expus tão alto assunto...

Por entre as lágrimas discretas, a jovem infanta sorriu:
— Só posso agradecer-vos a forma delicada e altruísta como vos desempenhastes de tão espinhosa missão. Na verdade, meu pai soube escolher o mensageiro. Só de vós aceitaria tão pesado fardo!
D. Nuno apressou-se a esclarecer:
— Neste momento sou apenas um dedicado súbdito de vosso pai e um silencioso admirador vosso!
A jovem mordeu os lábios, para conseguir manter a dignidade que o seu nome exigia e não chorar perdidamente com a fraqueza dos treze anos. Depois, estendendo de novo a mão pequenina ao jovem cavaleiro, murmurou:
— Adeus, D. Nuno! Que o Céu nos proteja... e nos una, já que tão cedo a Terra nos separa!...


O vento zunia com impiedade, arremessando ao rosto dos contendores a terra que em novelos se levantava do chão. O exército de Afonso Henriques caía em massa sobre o dos sarracenos. A luta em campo aberto levantava gritos e imprecações que o vento levava. Os estandartes batiam furiosamente, como pássaros na agonia, cortando os ares. E as vitórias do rei português prosseguiam por terras do Alentejo em direcção ao Algarve. E assim, em pouco tempo, chegaram perto da antiga cidade de Medóbriga.
Aí acamparam os de Portugal. O rei parecia contente. E conversando com um dos seus homens de confiança, pediu que mandassem à sua presença D. Nuno Mendes. O jovem cavaleiro não se fez esperar. Vendo-o perfilado na sua frente, o rei falou-lhe:
— D. Nuno Mendes, sabeis o apreço em que vos tenho. Sois um cavaleiro valente!
Com mais delicadeza que humildade, o jovem sublinhou:
— A vossa confiança dá-me forças para levar até ao fim as minhas missões...
— ... as quais acabais sempre com êxito!
— Mesmo que saia ferido do combate...
Havia um tanto de ironia na voz do cavaleiro D. Nuno. O rei português compreendeu-o, mas não se amofinou. Pelo contrário. Olhou-o atentamente, num ar admirativo, e acrescentou:
— O vosso mérito é indiscutível. Tenho-vos observado em campo aberto e verificado que procurais sempre o ponto mais aceso da luta, o local de mais extrema responsabilidade.
— Cumpro a minha obrigação de cavaleiro.
— Levais bem longe a vossa obrigação...
— Senhor! Talvez um dia possa filiar-me numa ordem fundada por vós. Ordem que me obrigue a viver no claustro, durante a paz, e na guerra a vosso lado, combatendo!
O rei sorriu:
— Bravo, D. Nuno Mendes! Folgo em ouvir-vos! Ficarei agora plenamente descansado sobre algo que me preocupava ainda. Mas estou a desviar-me do assunto que me levou a convocar-vos...
— Dizei, então, Senhor!
O rei respirou o ar da tarde que o envolvia, a plenos pulmões. Depois, o seu rosto tomou aquela expressão grave que assumia sempre que falava de guerra.
— Sabeis que estamos acampados perto do castelo de Arminho? 
— Assim me foi dito, Senhor!
— Noutros tempos viveram aqui homens de força que o defenderam até à última gota do seu sangue. Mas os árabes chegaram e dele fizeram sua morada.
— Sei que Arminho é uma praça forte dos Sarracenos...
— Mas breve será nossa! Amanhã, assim que o Sol dê indícios de começar a romper, cairemos sobre o castelo — esse famoso castelo de Arminho, que desejo para nós!
— A ideia apraz-me, Senhor!
— Ainda bem! E conto convosco para comandar a vanguarda!
— A vossa confiança em mim não cairá em vão. Arminho será nosso!
O rei sorriu. Fez com a cabeça um sinal de aprovação. O sangue fervia nas veias desse jovem que ficara a seu lado apesar de lhe ter feito conhecer o travo da amargura. E D. Afonso Henriques sentia uma simpatia especial por homens cujo ardor na luta fosse semelhante ao seu. Despediu-o com um gesto amigo. E ficou-se na sua tenda, largamente a pensar.
A tarde morria aos poucos na charneca de terra encarniçada. No firmamento, traços de fogo desenhavam-se, formando um quadro bastante estranho. E o vento, correndo agora mais sereno, parecia murmurar frases de estímulo ao exército acampado.
Bocejando em pequenos sopros de ar puro, a madrugada ergueu-se. Uma luz ténue mas prometedora veio já encontrar em ordem de marcha o exército português. O objectivo estava quase à vista — esse famoso castelo de Arminho que D. Afonso Henriques tanto desejava possuir. Chegada a hora, as hostes dispuseram-se para o assalto. O início da luta soou. Houve um momento de pânico dentro do castelo, mas os portugueses, que atacavam com fúria, sentiram que o inimigo começava a recompor-se. Deram-se as primeiras baixas. De um e outro lado, combatia-se com vigor. D. Afonso Henriques enervou-se. Não esperava tanta resistência. Chamou então de parte o comandante da vanguarda e gritou-lhe, no meio da vozearia geral:
— D. Nuno Mendes! Tereis de cumprir mais uma missão arriscada!
— Mandai, Senhor!
— Ide ao castelo e dizei ao alcaide que, se teimarem em continuar na luta e eu os vencer, passarei todos à espada! Todos! Compreendeis?
— Direi apenas isso?
— Será o bastante para pôr em perigo a vossa e as nossas vidas!
— Compreendo, Senhor. Irei sem demora.
E o cavaleiro, dando de esporas ao cavalo, correu em direcção ao castelo com o pedido de parlamentar. O combate suspendeu-se por momentos. Todos esperavam ansiosos novas de D. Nuno Mendes. Se este não voltasse dentro dum prazo estipulado, o combate continuaria com redobrado ímpeto. De súbito, porém, a figura esbelta do cavaleiro português desenhou-se sobre o muro do castelo e a sua voz, que já se habituara ao comando, soou sonora e firme:
— Não é necessário combater mais porque a fortaleza já se dá!
Houve um movimento de alegria. O porta-estandarte correu a içar a bandeira. E D. Afonso Henriques, erguendo a sua espada, gritou com entusiasmo:
— Que Deus seja louvado e vós, também, D. Nuno Mendes! A vitória é nossa! A vila que fundarei onde já foi outra vila, nossa será também. Mas não se chamará Arminho e sim Seda... já que «se dá!»
E assim, a vila do castelo de Arminho, de remotíssima idade, passou a chamar-se Seda desde essa famosa conquista numa bela manhã em que o vento deixou de soprar e um jovem de sangue ardente e coração destroçado dava tudo por tudo para, nas lutas em prol da dilatação do Portugal, esquecer um grande mas impossível amor.
Fonte: Gentil Marques, Lendas de Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962], p.Volume V, pp. 347-354

Bom Dia Alentejo!
Fotos: http://api.ning.com/files/zpBAGS3ej4N21d48PPUgS6w3JxSYpgPrX7lkfJt*QfCy9MhOYZCr4JePr-BgZBu88ukvW-s7i6b82TzMtqL5DCMvdGhaCOlq/castelo_de_sonhos.jpg , http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ee/19-v_2h_Vasnetsov.jpg
Mas lhe vai a pura doce história do amor desencontrado…