domingo, 12 de abril de 2015

Bom Dia Alentejo, Ponte de Sor, a Lenda da Nogueira, a moira não apareceu


Quando a Ponte de Sor era ainda uma cidade de Matusaro, nela havia um alcaide muito mau que tinha grande aversão aos portugueses. Ao contrário – pois a vos direi a vós mes compadres e minhas comadres – a alcaidessazinha sua filha, que era de uma beleza estonteante, vivia apaixonada por um fidalgo português que, por seu turno, lhe correspondia com um amor puro e a mais cega das paixões e queria fazer dela sua esposa.
O pai – assim vos direi a vossemecês – nem por sombras admitia que a filha se enamorasse do português, inimigo fidagal dos da sua raça, pois destinara já a filha para esposa de um seu amigo com quem, tinha secretamente ajustado o casamento.
O fidalgo português vinha de longes terras, pela calada da noite, arrostando com mil perigos, para falar à sua amada. Debruçada das ameias da barbaçã da fortaleza, a fidalga moira esperava-o, impacientemente. Uma vez chegado, ela abria a porta do castelo e os namorados sentavam-se num banco de pedra que ali havia, debaixo de uma nogueirinha, ouvindo o sussurrar plangente das águas da fonte que corria perto, trocando mil beijos e juras de fidelidade.
Assim se passaram muitos meses. Mas uma noite, o velho alcaide surpreendeu os dois amantes e cheio de cólera puxara da longa cimitarra para matar a filha, que lhe traíra a ideia de a casar com um dos da sua raça.
O português levantara-se de um salto e brandindo a sua espada gloriosa de tantos combates, parar vários golpes que o alcaide astuto desferira, acabando por desarmar aquele velho filho de Allah.

Ferido no seu orgulho, o alcaide jurou vingar-se e, um dia, obrigou a filha a tomar o filtro do esquecimento, para que deixasse de pensar no namorado. Mas a fada que o fizera dera-lhe um filtro de amor, que mais veio avivar o amor ardente da alcaidessazinha. Furioso o velho moiro mandou encantar a filha, lançando-lhe o anátema da maldição, para que ficasse encantada por muitos anos. Só numa longínqua noite de S. João, ao dar da meia-noite, se quebraria o encanto.
É por isso – a mes compadres e minhas comadres, a mes compadres – que nos tempos da minha mocidade, os rapazes e as raparigas vinham dos bailes das fogueiras de S. João, à meia-noite, beber água à fonte da Vila, que estava toda caiada e enfeitada de canas verdes, bandeiras e flores, esperançados de assistirem ao desencantamento da linda moira, que estaria penteando os longos cabelos negros, com o seu belo pente de oiro, à espera do eterno enamorado, para se casarem.
Rolaram muitos séculos, e um dia, quando o Dr. João Crawford Rodrigues era proprietário da quinta que no local mandou fazer, ordenou que cortassem a nogueira. Quando os seus criados iam cumprir tal ordem, ouviram uma voz saída de um poço, que existia no local, prevenindo que não cortassem a árvore, porque, fazendo-o, morreria o dono da quinta. Os criados, atemorizados, foram informar o patrão que surpreendeu a ordem.
Passaram-se mais uns anos e um dia os criados voltaram para cortar a nogueirinha. A mesma voz feminina voltou a ouvir-se, dando novo aviso. Não acreditando nele, o Dr. Rodrigues mandou abater a árvore. Faleceu nessa mesma noite.
Talvez inspirado por esta lenda, o Dr. Manuel Rodrigues de Matos e Silva, posterior proprietário da mesma quinta, mandou plantar no mesmo local outra nogueirinha, que todos nós conhecemos, e que há pouco ainda foi cortada.
Era para ela que todos olhávamos, quando, nas noites de S. João, vínhamos à fonte, na esperança de vermos a linda moira que deu origem a esta bela lenda.
Fonte: Primo Pedro da Conceição Freire Andrade, Cinzas do Passado, Edição da Câmara Municipal de Ponte de Sor, 1986

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Bom Dia Alentejo, Crato, a Igreja de Nossa Senhora dos Mártires


A igreja Paroquial tem por orago Nossa Senhora dos Mártires e foi edificada no século XVIII sobre uma mais antiga, a dez quilómetros de distância da vila do Crato.
Está situada no meio de montados e isolada da povoação.
Fazia parte do Priorado do Crato.
 
A fachada principal, com largo frontão de cantaria e duas pirâmides com coruchéus nos cantos. Pórtico de granito com a cruz de Malta esculpida e um óculo oval. Sobre a fachada, ergue-se a torre sineira pequena e graciosa com quatro olhais e cúpula periforme.
Nas fachadas laterais conservam-se gárgulas interessantes que devem ser os restos da igreja primitiva, hoje desaparecida.
O interior é de uma só nave abobadada com capela-mor e dois altares laterais.

O baptistério está colocado do lado do Evangelho e o coro, bastante interessante, é de três tramos, assentos em arcos de volta redonda e fazendo os dois tramos laterais ângulo central.
O retábulo do altar-mor é uma pintura em tela representando a Virgem e dois Santos, lembrando a maneira de Vieira Lusitano.
Na sacristia, arcaz do século XVII e lavabo de mármore com a cruz de malta.
Junto ao cemitério, perto da igreja, existe um pequeno altar de alvenaria, com frontão, tendo dois azulejos com alminhas e um altar de azulejo verde e branco do século XVI e nele um painel mais moderno com a Senhora da Conceição.
Fonte: Inventário Artístico de Portugal, Luís Keil, 1943

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Bom Dia Alentejo, a Chança, Forca da Chança, o Outeiro da Forca

 
Na antiga vila da Chancelaria, actual Chança, existia uma forca no denominado Outeiro da Forca.
Situa-se este outeiro – mes compadres e minhas comadres – a cerca de 500 metros para SW do centro da povoação, sobranceiro ao velho caminho que ligava a Chancelaria ao sul.
No local onde se levantaria a forca, que seria de madeira, ergue-se hoje uma torre de alta tensão. No local denota-se uma irregular zona aplanada que serviria de esplanada da forca.
- Assim pois se dirá a vossemecês, mes compadres e minhas comadres – este outeiro é bem visível do centro urbano.
O local, - para não ficar a faltar nada a vossemecês – possui as seguintes coordenadas UTM, obtidas por GPS: X – 0602561; Y – 4344934.
Fonte: Jorge de Oliveira, Ana Cristina Tomás, as forcas do Distrito de Portalegre, 140 anos após a abolição da pena de morte

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Bom Dia Alentejo, São Brás dos Matos ou Mina do Bugalho, Alandroal, a prata e o ouro que abalava


São Brás dos Matos ou Mina do Bugalho é uma freguesia portuguesa do concelho do Alandroal.
Constituída por uma só Aldeia (Mina do Bugalho) e um lugar (são Brás dos Matos). A aldeia que foi formada aqui, ela nasce por causa das antigas minas. Esta terra chama-se Mina do Bugalho, o seu topónimo assim se pensa, havia aqui muitos minérios, por isso, amigos meus, se construíram minas.
Esta gente rude, esta gente que vivia debaixo da terra, estes mineiros, eles viviam, eles moravam na herdade do Bugalho. Que primeiro lá construíram casas e formaram uma aldeia, uma terra, com o nome Mina do Bugalho.
Os minérios explorados, amigos do mundo, era a pirite, o cobre, o enxofre, o volfrâmio, a prata e ouro, mas estes havia em poucas quantidades.

O minério explorado era assim para exportação e servia ele também, ele, para segurar as necessidades do país.
Estes minérios e estas pratas ou lá ouros, eles deixaram de ser explorados, entenderam que já não valia assim a pena, vai assim a fazer mais ou menos uns cem anos.
A parte antiga desta graciosa aldeia, ela situa-se num vale, de onde, a vista ou lá olho, pode ver um imponente Palacete, terras de um hotel, onde viviam nele, os donos e os engenheiros das minas também.
Esta parte antiga, formada ela por diversas ruas e largos, mas o largo Principal, o coração destas vidas, destas gentes, Largo de São Brás denominado, local onde se localiza o grandioso Arco, onde se pesava o minério.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Bom Dia Alentejo, Gentílico de Crato, Crato, a Cratense


Registei cretinense, porque o fiz derivar de Cretina topónimo extinto, e que hoje se julga ser a actual vila do Crato.
Também se dia que Crato foi designado em tempos bastante recuados por Castraleuca e Castraleuca e, portanto, os seus habitantes seriam chamados Castralencenses e Castraleucenses.
Xavier Fernandes afirma que num documento do século XVIII aparece a grafia Crataleuca, que, se não é erro da escrita, deve ser forma arbitrária ou forçada, talvez para aproximar as sílabas da forma actual Crato. O ilustre filólogo regista ainda:
Castraleucense referido a Castelo Branco, por ter ouvido empregado algures, mas diz logo que é forma que não deve ser usada, visto tratar-se de um detestável hibridismo – o latim Castrum de mistura com o grego Leukós, branco e com um sufixo de origem latina”.
A meu ver, a forma que tende a dominar é Cratense, derivado imediato da actual vila do Crato.

Foto: http://www.meloteca.com/imagens/musicpavillions/crato-portalegre-dec-70.jpg
Respeitante a Cretina, arquivo o primeiro verso da Estª. 17, Canto VII do poema heróico Veriato Trágico, Lisboa, 1864, de Brás Garcia de Mascarenhas, que o inclui:
“Chega a Cretina dita agora Crato”.
O saudoso Prof. e comprovinciano amigo Manuel Subtil publicou em 1942, no semanário O Castelovidense, um artigo que intitulou: “O Gentílico “Cratense”, que merece apenas ficar arquivado neste trabalho: A prepósito de Crataleucense transcreve a opinião do filólogo Xavier Fernandes, o qual considera forma arbitrária ou forçada.
Concordamos inteiramente com a opinião autorizada do ilustre filólogo, a qual manifestamos há anos já numa conferência que realizamos no antigo Grémio Alentejano, de Lisboa, hoje, Casa do Alentejo, subordinada a título de “A Vila do Crato e o seu Concelho”.
Aí firmámos o seguinte: “O nome dessa desaparecida cidade era, segundo parece, Castraleuca, Castraleuco ou Catraleuco, como também li em um documento do século XVIII. Esta última designação parece-me um pouco forçada, talvez no intuito de a aproximar do actual nome da vila”.
O documento referido – possivelmente o mesmo que o Dr. Xavier Fernandes viu – existe no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e é assinado pelo Padre Diogo de Sousa Tavares, que em 1758 era vigário da vila do Crato.
Não repugna admitir que, por espírito bairrista, por amor à terra onde vivia e donde possivelmente seria natural, o bom padre suprimisse arbitrariamente o s da primeira sílaba de Castraleuca.
Não havendo, pois, a  certeza de que a antiga cidade, em cujas ruínas assenta a actual povoação do Crato, tenha tido o nome de Crataleuca, o gentílico Crataleucenso não pode nem deve, na verdade, ser aplicado ao natural do Crato, mas sim o derivado imediato do nome actual da vila, isto é, Cratense”.
Fonte: Alexandre de Carvalho Costa, Gentílicos e Apodos Tópicos de Portugal Continental, Recolha e Compilações, Edição da Junta Distrital de Portalegre

sábado, 28 de março de 2015

Bom Dia Alentejo, Alter do Chão, Topónimo de Alter do Chão, a uma bandeja lhe vai

 
A respeito desta vila e sede de concelho do distrito de Portalegre, em Abril de 1935 apareceram anónimas as seguintes referências:
“E assim surgiu das ruínas da velha Abeltéria a vila de ALTER DO CHÃO, cujo nome dizem ser corrupção da antiga cidade romana. Porém, como desta surgiram duas vilas – ALTER DO CHÃO e Alter Pedroso – é mais provável que o nome ALTER venha do adjectivo alter, que significa um de dois ou uma de duas partes, pois que ALTER DO CHÃO é uma das duas partes da cidade Abeltéria, sendo a outra parte Alter Pedroso, hoje pequena povoação, anexa a ALTER DO CHÃO, donde dista três quilómetros.
DO CHÃO é a tradução portuguesa da palavra latina planus, porque desde remota data se chamou ALTER PLANUS a esta parte mais plana da velha cidade, em oposição à outra parte, que, por ser mais alta e pedregosa, se chamou Alter Petrosus, Alter Pedroso”.


A segunda parte destas referências foi criteriosamente contestada pelo Dr. Artur Bivar, que se manifestou:
“Esta etimologia (a que faz filiar o topónimo Alter no adjectivo latino alter) não tem probabilidade nenhuma. Históricamente, não, porque, se a cidade esteve em ruínas desde a destruição no tempo do imperador Adriano até D. Afonso II a mandar reedificar e povoar, ficando então as duas povoações, era latim de mais aquele incorrupto Alter no século XIII.
Nesse tempo, já o alter latino nos tinha dado foneticamente o nosso outro, como em francês autre e em italiano altro. E só ali é que teria ficado fixo, tal qual era em latim, só com a deslocação do acento para a última sílaba?
Além disso, se no século XIII a primeira sílaba de alter ainda não estivesse alterada, estava-o seguramente a segunda, na linguagem comum, porque outro saiu de alter pelo acusativo alterum e, com a deslocação do acento suposta, teria dado Altero e não Altér. E com quem concordaria, in mente aquele adjectivo alter? Com vila? Então deveria ser áltera ou altera. Com oppidum? Então devia ser áltero ou altéro”.
Efectivamente e perante tão sensatos e fundamentados embargos, tal suposto étimo tem de ser abandonado.
ALTER proveio, sim, do locativo Abelterii, cidade, através de formas intermediárias e pré-históricas Avelterii e Aelter, como mostrou Leite de Vasconcelos.
          Fonte: Dos Topónimos e Gentílicos, de Xavier Fernandes, Vol. II – 1944 – Págs. 253-254.