sexta-feira, 16 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, Mora, Topónimo de Mora, o Presente não lhe Demora

 
A forma mais remota que conheço da sede deste concelho é AMORA, em documento de 1446, e noutro do século XV.
O Censo do Alentejo de 1527, ainda traz duas vezes<< Villa da Mora >> e só uma << Villa de Mora >>. Há ainda outra Mora, freguesia de Trás-os-Montes (Vimioso), e Amora, no concelho do Seixal, além dos derivados – Moredo, Moraes, em Trás-os-Montes, e Amoreira, Amoraias, numerosas em todo o país.
A base comum estará no latim vulgar mora, português moderno amora (com prótese do artigo feminino) que significa não só o fruto da amoreira, mas também a própria árvore, em latim clássicos ditos respectivamente << morus e morum >>.
Da Informação Particular de 1941, do Dr. Joaquim Albino da Silveira).
 

Mais de uma hipótese se pode formular sobre a origem desta designação. Relacionar-se-á com Mor contracção de Moor, que foi nome de mulher e subsiste ainda na toponímia?.
Teremos então em Mora um nome latino, mas a solução não seduz muito, até porque, em topónimos desta origem, tal elemento não aparece isolado, antes fazendo parte das expressões compostas. Talvez seja preferível fazer a aproximação morfológica de MORA e Morão, nome de localidades do Minho e Trás-os-Montes.
Morão, representado na Galiza por Morán e o mesmo que Mourão, é um caso oblíquo correspondente a Maurane (século XI), de Moura, genitivo Mauranis, nome visigótico ou, antes, latino, mas adoptado e adaptado pelos visígodos(em latim, Maurus).
O desconhecimento de formas antigas e intermediárias do topónimo dificulta a determinação do verdadeiro étimo.
Dos Topónimos e Gentílicos, de Xavier Fernandes, Vol. II – 1944 – Pág. 339). Vid. Apêndice.

É MORA de antiga fundação mas não sabe quando nem quem foi o seu fundador. Foi-lhe por D. Manuel I, dado foral em 1519 e era Comenda da Ordem de Avis.
É banhada pelo Raia que corre sossegadamente até ao sítio denominado a Fraga, onde se despenha formando uma queda que, talvez devido ao desamor pelas nossas riquezas naturais, ninguém pensou ainda aproveitar.
É a Fraga, pelo seu aspecto surpreendente, vista obrigatória de quantos por MORA passam.
Parece que o nome de MORA provém de, em tempos remotos, existir este local um Convento ou Recolhimento de frades da Ordem de Avis a que lhe davam o nome de DEMORA, porque na passagem para outros conventos, ou locais, os frades desta Ordem, aqui permaneciam até partir. Com o andar dos tempos passou a chamar-se MORA.
Fonte: Do Boletim da Casa do Alentejo – Ano XX – N.º 213 – Janeiro de 1955

Bom Dia Alentejo!

Bom Dia Alentejo, as terras de Aldeia da Mata, a Crato viva, a Língua Alentejana com puro grato registada


A

Abrir os ganaipos  -  falar muito alto.
Acegalhar  -  dar qualquer coisa.
Açôr  -  pessoa de má génio.
Aguçoso  -  homem trabalhador.
Amaldecinado  -  pessoa com pouca sorte.
Amaruja  -  qualquer coisa com gosto de azedo ou parecido.
Anagalhar  -  dar por acabado qualquer serviço.
Anda à gosma  -  anda à mama.
Anda a sarançar  -  anda sem saber o que anda a fazer.
Anda de balão  -  anda grávida.
Anda numa fona  -  anda apressado ou atarefado.
Arrachadela  -  arrachado.
Arreganhado  -  pessoa com frio.
Arregougado  -  espertalhão zangado.
Arreitado  -  pessoa de génio vivo a querer dar nas vistas.
Arremeda  -  imita.
Arronqueira  -  de toda a vida tem sido o nome do pé duma árvore que ficou no terreno depois de cortada. Hoje também dão esse nome a um copo de vidro de um quarto de litro.
Arrougado  -  importante.
Atabão  -  pessoa mal jeitosa.
Atanazar  -  pessoa que quer brigar ou peganhosa.

B

Bacoca  -  pessoa pouco sabedora.
Bandulhe  -  barriga.
Baril  -  bom.
Barriga de almece  -  gordo.
Belicoso  -  esquisito com a comida.
Berrugas  -  pessoa valente cheia de força.
Bilhardeira  -  bisbilhoteira.
Boitice  -  barulho.
Bombela  -  guarda-chuva.
Boqueirão  -  taberna.
Bruta-montes  -  pessoa mal educada.
Bua  -  água (esta palavra era mais empregada quando se deva de beber às crianças).
Bujaca  -  porta-moedas.
Bulicosa  -  pessoa que não gosta de tudo.

C

Calatroia  -  mistura mal feita de várias coisas ou mistura de coisas ruins ou comida mal feita.
Calcanhos  -  pés.
Calhostras  -  sujidade do nosso corpo.
Calote  -  dívida.
Cambalache  - trocar ou vender sem medir ou pesar.
Canicalho  -  coisa pequena.
Carambuleira  -  pessoa mentirosa, intriguista.
Carconço  -  pessoa muito segura no dar.
Carconse  -  homem que foge de pagar um copo de vinho a um amigo.
Catar  -  tirar piolhos de alguém.
Catronhos  -  pés.
Cavar cepa de lombo  -  ouvir daquilo que não gosta.
Chanfana  -  carne guisada de cabra ou ovelha.
Colastra  -  mulher porca.
Combalido  -  podre ou estragado.
Comua  - coisa que não presta.
Conduto  -  o que se come com o pão.
Confranger  -  tem mau estar, está-se mexendo.
Copa  -  roupa.
Croinar  -  dormir.
Curso  -  evacuar.

D

Dar ao chinelo  -  falar muito.
Derrangado  -  pendurado.
Desabilha  -  vai-te embora.
Desingrafolhou-se  -  livrou-se de qualquer coisa.
Desinsaibrido  -  coisa sem gosto.
Destoutenado  -  distraído, pouco atento.
Desunha  - corre.
Diz o dito por não dito  -  pessoa mentirosa.

E

Emacharroado  -  céu escuro para chover.
Emandongado  -  qualquer coisa mal feita.
Emboubado  -  encantado.
Embranchada  -  qualquer coisa complicada ou confusa.
Embrutalhado  -  estúpido.
Emburricado  -  zangado.
Empachado  -  pessoa que deseja falar e não a deixam.
Empandeirado  -  pessoa que cai e ficou estendida no chão.
Entramburtado  -  qualquer parte do nosso corpo inchado ou qualquer coisa com mais volume que o normal.
Encafuado  -  pessoa com medo e escondida sem falar.
Encantonou  -  arrumou mal arrumado.
Encanzinado  -  entusiasmado.
Encarrafouçado  -  céu com muitas nuvens escuras.
Encouchado  -  curvado ou mal feito.
Enfonar  -  coser a roupa à pressa ou mal cozida.
Enfrouvado  -  enfezado.
Engadanhado  -  quando não se consegue unir ou fechar os dedos das mãos com frio.
Enganido  -  pessoa com frio.
Engoufado  -  pessoa que está com frio ou encolhida.
Enjandrou  -  concertou.
Enjócado  -  com defeito ou torto.
Enmarzougado  -  grosseiro.
Enregar a trabalhar  -  começar a trabalhar.
Enremolhado  -  amarrotado.
Ensigueirado  -  apaixonado.
Enteorgado  -  muito bêbado.
Entrementes  -  neste intervalo de tempo faço isto; era vulgar dizer-se: eu entrementes faço isto ou aquilo.
Entrongado  -  meio bêbado.
Escalamoucada  -  pessoa que cai e fica com contusões.
Escalmurrado  -  pessoa muito enfadada.
Escantelhão  -  qualquer coisa a ver-se cair.
Escolateira  -  cafeteira.
Esfaguntado  - fugir com medo.
Esfronhar  -  limpar a chaminé.
Esganipado  - roto.
Esmoufado  -  desmazelados, enfadado, mal arrumado.
Espichado  -  estendido.
Está ateceinar  -  à espera de fazer qualquer coisa custosa de resolver.
Está baril  -  está bom.
Está numala  -  está desejoso.
Estamarrado  -  afastado ou perdido.
Estamueirar  -  ir-se estender ou deitar.
Está a bispar  -  está a ver.
Estevegança  -  muito mexida num trabalho, balbúrdia.
Estou a pander  -  estou quase a dormir.
Estou numala  -  estou desejoso.
Estouvado  -  pessoa suja, mal vestida, rota.
Estrafêgo  -  muito movimento.
Excorchar  -  beber um copo de vinho até à última gota.
Excurchalhas  -  resto de qualquer coisa ou pequena quantidade.

F

Fanôco  -  bocado de pão.
Fedor  -  mau cheiro.
Ficar à pá de pírola  -  ficou com fome ou sem nada.
Fonas  - roupa mal cozida.
Furda  - curral de pequenas dimensões onde se engordam porcos.

G

Gabaia  -  casaco que fica mal a quem o veste.
Galamandeus  -  mal acabado ou com qualquer defeito.
Ganfarras  -  mãos.
Garlejar  -  pessoa que se faz ouvir ou falar alto.
Garoulas  -  pessoa com a cabeça no ar.
Garrafo  -  frasco.
Gingar  -  fazer pouco de alguém.
Graviços  -  pequena porção de mato para fazer lume.

H

Havia arroz amarelo e do outro  -  havia muita confusão.

I

Imporem  -  recém-nascido, ou pessoa sem préstimo.
Incanzenado  -  entusiasmado com o amor ou com qualquer coisa.
Inganido  -  pessoa com frio.
Iscou-se  -  zangou-se.

J

Javardo  -  pessoa muita suja.
Jorna  -  ordenado.
Jornais  -  dias.

L

Labogueia  -  falta de asseio.
Lambança  -  quando uma pessoa fala muito e alto.
Levas uma tuna  -  levas uma sova.

M

Mal me pregatei  -  passou-me o tempo de pressa.
Mal se espargatou  -  fez depressa ou foi depressa.
Malagou  -  homem desconhecido e de má aparência.
Manapolas  -  mãos.
Mandicante  -  pessoa a fazer-se esperta.
Manhouvão  -  homem alto, forte e desconhecido no sítio.
Marapona  -  mulher mal vestida ou mal comportada.
Marzougo  -  homem grosseirão.
Maunça  -  costuma-se dizer “andar à maunça”, que foi a qualquer lado; pessoa que anda à solta.
Moinante ou boinante  -  vadio.
Morre esperecido  -  morre com fome.
Motreco  -  pequeno resto de pão que sobra quando se come.
Munsum  -  pessoa muito metida consigo ou calada.
Murinhar  -  chuva miudinha.

N

Não tem aldraça  -  não tem jeito.
Não tem bicho  -  não tem actividade.
Niquente  -  pessoa grave.
Nosso senhor o favoreça  -  agradecimento que os pedintes faziam quando recebiam esmolas de alguém.

O

O leite arrufou  - entornou-se ao ferver.

P

Panar  -  rouba.
Pano para mangas  -  qualquer coisa em quantidade.
Parece uma urca  -  quando se tem alguma parte do nosso corpo inchado.
Pateia com a vida  -  morre.
Penetra  -  pessoa esperta.
Pica-lhe os olhos  -  pessoa que gosta pouco do que está a comer.
Pindricas  -  os ramos mais altos das árvores.
Pocilga  -  o mesmo que furda; estas duas palavras também se empregam nas casas sujas e mal arrumadas.
Por uma unha negra  -  por pouco.
Puxar as orelhas à cama  -  fazer a cama.

R

Ranfanho  -  mau som ou instrumento mal afinado.
Reformar o prato  -  repetir.
Retumbir  -  afastar qualquer coisa de nós.
Rou-Rou  -  quando um segredo se começa a espalhar.

S

Salapismo  -  pessoa difícil de aturar.
Sarra a porta  -  porta encostada e não fechada.

T

Tora  -  bocado de carne ou de pão.
Trapaça  -  coisa que não presta.

Fonte: A Nossa Terra, João Guerreiro da Purificação, Associação de Amizade e Terceira Idade, Aldeia da Mata, 2000.

Bom Dia Alentejo!

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo , a Freguesia do Castelo, Lenda da Nossa Senhora do Cabo Espichel, a Água acalmou e ficou doce


Ano de 1215. Em Portugal reinava el-rei D. Afonso II. O Inverno tinha entrado duro. O vento zunia, impertinente e bravo. A chuva era grossa e caía sem pressa de chegar ao fim. O mar bramia, revoltado pelos assobios e açoites do vento. Enfurecido, arremessava-se de encontro às rochas que bordam a costa portuguesa. Joguete das ondas, surgiu mesmo em frente do cabo Espichel uma nau que pertencia a um mercador inglês, senhor de grande fortuna e génio aventureiro.
Com o cair da noite, a tempestade aumentava. A bordo viviam-se momentos trágicos. Apesar da coragem da tripulação, o navio parecia desfazer-se de momento a momento, batido como um simples brinquedo pela ventania brutal e pelo bailar diabólico das ondas revoltas. Então, no desespero causado pela tragédia, os homens recorreram ao padre Hildebrando, frade eremita dos agostinhos, que os acompanhava. O padre — dizia-se — trazia consigo uma pequena imagem milagrosa. Um dos marinheiros mais afoitos gritou:
— Padre, salvai-nos! Só vós podeis ajudar-nos!
Os outros fizeram coro:
— Salvai-nos, padre!
O padre, que parecia meditar, quase indiferente ao espectáculo que o rodeava, ergueu o olhar para os que pediam a sua ajuda. Falou-lhes:
— Tende calma, meus filhos! Tende coragem! Deus há-de valer-nos! Deus e Nossa Senhora, cuja imagem sempre me acompanha. Vou buscá-la para que a possais contemplar. E tende fé, muita fé! Ela há-de fazer mais este milagre!
O marinheiro que primeiro havia falado gritou, cortando o barulho da tempestade:
— Deus o oiça!
Os outros imploraram:
— Que Nossa Senhora nos salve!
O padre, conforme pôde, pois os balanços da nau eram fortes, foi buscar a imagem. Mas, quando regressava, uma onda mais alta cobriu os homens. Houve gritos, alarido, entre o escorrer da água do mar. Quando a onda passou, os homens estavam todos. Bem se olhavam, tentando localizar-se. Mas o padre juntava as mãos vazias num gesto desesperado.
Gritou:
— Meus filhos! A santa imagem desapareceu!
Logo os homens se lamentaram em altos brados:
— Estamos perdidos! Perdidos!
O padre pareceu recobrar a calma.
— Não devemos perder a fé! Oiçam-me! Vamos ajoelhar conforme pudermos. Aproximai-vos de mim! E faremos em conjunto uma oração, como se fôssemos um só. Dizei comigo: «Ave, Maria… cheia de Graça...».
A oração sobrepôs-se à tempestade. E quando chegou ao fim, os homens não podiam crer no que os seus olhos viam. Por estranho milagre tudo se transformara. As ondas tinham acalmado. O vento deixara de soprar. A chuva não caía mais. E uma luz intensa iluminava o Oceano. Luz tão bela e tão forte como a que, segundo contam os antigos, surgira naquela noite singular em que a Virgem Mãe dera à luz o Menino Deus!
A manhã raiava. O dia nascera claro. Alegres como crianças, os homens pisaram terra firme. Com eles ia o bom padre Hildebrando. E foi ele quem fez a maravilhosa descoberta. Cheio de alegria, gritou:
— Olhai, meus filhos, olhai!... Reparai para esta caverna do cabo! Depressa! Quero que verifiqueis com os vossos próprios olhos! É ela, não é verdade? É a imagem de Nossa Senhora que eu trazia!
Os homens haviam acorrido e olhavam surpreendidos tão precioso achado. Lá estava, de facto, numa das pequenas cavernas do cabo Espichel, como se tivesse sido posta ali por mãos divinas, a pequena imagem de Nossa Senhora, envolta numa autêntica auréola de luz. Padre Hildebrando exclamou com unção:
— Foi um milagre que agradeço ao Céu!
E voltando-se para os marítimos:
— Meus filhos! Agora já vos posso dizer toda a verdade! A imagem que observais foi talhada e feita pelos próprios anjos! É única no mundo! Ajoelhai, meus filhos!
Os homens ajoelharam, em muda contemplação. Só os seus pensamentos se elevaram numa prece nem sempre bem definida.

E conta a lenda velhinha que, a expensas de toda a tripulação e com o consentimento superior, ali mesmo se construiu uma capelinha para guardar tão preciosa imagem. Como capelão, ficou o padre Hildebrando. E assim começou a história de Nossa Senhora do Cabo Espichel.
Os anos passaram. Dois séculos, talvez. E foi por volta do ano 1410 que um velho de Alcabideche teve, certa noite, uma visão de espantar. Estava ele no quintalório da sua casinha quando viu subitamente, lá ao longe, uma estrela muito luminosa, muito brilhante. Tentou o velho localizá-la e calculou que essa estrela devia estar sobre o cabo Espichel.
A pé, a distância de Alcabideche ao cabo era grande e difícil. Foi o velho deitar-se, sempre a pensar na estrela. De madrugada sonhou que a própria estrela lhe falara, dizendo:
— Admiras-te do meu brilho, que encandeia os teus olhos? Pois não te admires! Marco uma presença grandiosa: a de Nossa Senhora! Sim... Nossa Senhora está numa lapa do cabo Espichel. Vai lá vê-La e constrói uma nova capelinha, já que a outra foi destruída. Vai, não demores! Nossa Senhora do Cabo espera por ti!
Quando, no sonho, a estrela desapareceu, o velho acordou. Mas passou o resto da noite num sobressalto. Não conseguia conciliar o sono. Assim, mal a alva rompeu, o velho de Alcabideche pôs-se a caminho. Andou, andou, quase sem descansar. Atravessou o Tejo num batel. A noite chegou. Apressou o passo até à povoação mais próxima, e encontrou-se na Caparica, onde, exausto, resolveu pedir pousada. Discretamente, bateu a uma porta. De dentro, uma voz feminina perguntou:
— Quem bate a estas horas?
O velho esclareceu:
— Perdi-me no caminho… e já é noite...
A mulher abriu a porta da casa e ficou-se a olhar o homem. Depois explicou:
— Vivo só... mas pode entrar. Também já sou velha...
O de Alcabideche entrou, agradecendo:
— Que Deus a recompense! Sinto-me, na verdade, tão cansado!
Ela indagou:
— Vem de muito longe?
Sentando-se e suspirando de alívio, ele concordou:
— Sim, venho de muito longe. E ainda terei muito que andar!
Curiosa, ela fez mais uma pergunta:
— Está a cumprir alguma promessa?
Ele meneou a cabeça:
— Não. Correspondo apenas a um pedido.
— Um pedido?
— Sim… e feito por uma estrela!
Ela admirou-se mais:
— Por uma estrela?... Por uma estrela do céu?
— Isso mesmo.
— Como é que isso foi?
— Eu lhe conto.

E, excitado pela recordação do sonho, o velhote de Alcabideche contou a sua estranha história à velhota da Caparica. Não cabendo em si de surpresa, a velhota exclamou:
— Santa Mãe de Deus! O que me diz! Mas isso é espantoso!
O velhote sorriu. E apontou, olhando por uma fresta da janela:
— Vê, além, aquela luz? Lá está a estrela! É ali que está a imagem da Virgem!
Ficou pensativa, a boa velhota. Por fim, disse ao de Alcabideche:
— Vá deitar-se, que precisa descansar. Durma bem, e amanhã voltaremos a falar no assunto.
Mas a velha não se deitou. Ficou olhando pela janela a estrela brilhante. De súbito falou alto, mesmo estando só:
— Como eu gostava de ir ao cabo Espichel! Como eu gostava!
Ergueu o busto. Os seus olhos baços brilhavam a um repentino pensamento. Exclamou:
— É isso mesmo! Vou à frente do velho! A luz me guiará! Vou mesmo de noite.

Dentro de pouco tempo será manhã. Eu desejo tanto ir orar à Senhora que está no Cabo!
Disse e fez. Embuçou-se num xaile e saiu, deixando o velho de Alcabideche entregue ao seu profundo sono.
Quando o velho despertou e se viu sozinho, logo compreendeu o que se havia passado. A manhã já ia alta. Afligiu-se por isso, mas disse para si mesmo:
— As mulheres são sempre as mesmas! Para que lhe comuniquei eu o meu segredo? Agora vai chegar em primeiro lugar. Tenho de caminhar tão depressa quanto possa!
E o de Alcabideche partiu em direcção ao Cabo. Estugava o passo. O desejo de encurtar o tempo que o separava da Senhora dava-lhe novas forças. E, assim, apesar da idade e do cansaço que o ia dominando, conseguiu chegar ao cabo Espichel.
Porém, o seu primeiro sentimento foi de desânimo, quase de revolta. Ajoelhada aos pés da Virgem, diante da lapa, estava a velha da Caparica. Ele zangou-se:
— Traiçoeira! Se queria vir, ao menos viesse comigo! Fui eu que lhe contei tudo. E foi a mim que a estrela disse para vir aqui!
A velha mostrou-se pouco à vontade.
— Traiçoeira, não! A Virgem pertence a todos! E se vossemecê dormia, porque havia eu de esperar?
Sobrepondo-se à voz da velha, uma voz bonita soou:
— Não se zanguem! Porque não hão-de ser os dois a promover a construção de uma nova capelinha neste lugar?
Os velhos entreolharam-se, primeiro amedrontados. Depois caíram de joelhos, e ali mesmo prometeram pedir a quem pudesse, para se construir a capelinha dedicada à Nossa Senhora do Cabo Espichel. E um raio de sol, como língua de fogo, beijou a cabeça dos dois velhos, absortos na contemplação da imagem da Virgem!
A nova capela foi construída. E ainda hoje lá está uma pedra gravada onde se lê uma inscrição comemorativa do facto. 
O tempo continuou correndo. E a feliz aventura dos dois velhos correu paralela ao tempo, tornando-se popularíssima. E como o povo português, na sua alma de poeta, perpetua em verso os factos que sente mais seus, logo surgiu a quadra que ficará de geração para geração:
O velho de Alcabideche
E a velha da Caparica
Foram à Rocha do Cabo,
Acharam prenda tão rica!

Fonte Gentil Marques: Lendas de Portugal, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume IV, pp. 283-287

Bom Dia Alentejo!



 

Bom Dia Alentejo, Tolosa, Coreto de Tolosa, a fresquidão de umas terras do rio Sor

 


No princípio do séc. XX foi o Largo Dr. Tello Gonçalves contemplado com este coreto que, em 1982, foi objecto de uma pequena restauração.
A sua forma é hexagonal, com 2,90m de lado e o pavimento de argamassa de cimento encontra-se a 1,60m de altura do solo.
Foi mandado construir pela Junta de Freguesia de Tolosa e actualmente é propriedade da Câmara Municipal de Nisa.
De paredes em alvenaria e cobertura em chapa zincada ondulada, com estrutura em ferro e cimalha da cobertura em chapa, serve hoje de palco a pequenos grupos musicais em festividades da vila.
É electrificado e está em bom estado de conservação.
Fonte: Coretos do Norte Alentejano / Maria de Lurdes Ferreira Serra
 
Bom Dia Alentejo!

terça-feira, 13 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, Portel, Topónimo de Portel, a passagem era estreita para o outro lado

 


Tem as serras de Portel a configuração como que de enorme ferradura cujo centro é composto de várias bacias de fértil solo, que foi conhecido e habitado de mouros, donde provável será lhe venha o nome que tem, se não significa diminutivo de Portelo, ou não é nome de Portel França, que por semelhança topográfica lhe daria o fundador e povoador cristão, que andou por aquele país………….
Diz-se que PORTEL significa propriamente << porto pequeno >> ou << entrada ou passagem estreita >>.
(Do estudo Concelho de PortelA sua história e a sua situação – por A. F. Barata – 1933 – Pág. 426).
 
Quanto à origem do nome, tem-se dito, e a hipótese é aceitável, que PORTEL significa propriamente << porto pequeno >> ou << entrada ou passagem estreita >>. Deve, pois, ser um vocábulo porto com um sufixo diminutivo, como cordel de corda, pastel de pasta, etc.
Dos Topónimos e Gentílicos, de Xavier Fernandes, Vol. II – 1944 – Pág. 352).

Bom Dia Alentejo!

 


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, terras de Alter do Chão, a Lenda dos Doze Notáveis, a lei ela que se queria cumprir

 
D. Afonso III (séc. XIII), após a reconquista cristã, concedeu um foral a esta povoação para animar os homens livres que fugiam das exigências e vexames das terras do Norte a fixarem-se ali, com estatuto de senhorio colectivo. O filho D. Dinis, concedeu novo foral, no qual dava aos moradores as garantias dos homens de Santarém. Entre outros direitos, os moradores de Alter tinham o de não ser vexados com a odiosa pousadoria. Só o rei e o seu séquito podiam, quando viajavam, instalar-se dentro da vila.
 

A história na sua simplicidade brutal é a seguinte: Um fidalgo de velha linhagem, Martim Esteves de Moles, ia de viagem e quis apousentar-se na vila. Os homens do concelho, que eram os lavradores mais respeitáveis (mais "honrados", dizia-se na época), entenderam que não tinha esse direito, e recusaram-lhe a guarida que ele pedia.
Martim Esteves sentiu-se afrontado na sua honra fidalga: quem julgavam aqueles campónios que eram para assim ousarem resistir a uma ordem sua? Apresentou a sua indignada queixa ao rei. O monarca era então D. Afonso IV, justo e bravio. Deve ter mandado ver nos livros de que lado estava o direito, e a resposta veio clara e definitiva: os de Alter tinham razão e limitaram-se a exercer o direito que o foral lhes concedia. O fidalgo não entendia subtilezas destas. O seu direito era outro. Reuniu os irmãos, cada um arrebanhou os homens de armas que pôde, voltou a Alter e "matou os doze melhores homens de armas que aí havia".
Os melhores significa os de mais alta condição. Eram os lavradores mais antigos, os responsáveis pela administração municipal, e que ele podia com razão presumir serem os mesmos que se tinham oposto à sua entrada na povoação.
 Bom Dia Alentejo!

sábado, 10 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, Castelo de Vide, a Nossa Senhora da Alegria, o Manto apagou o fogo do inferno

 
 
















Conta-se que uma certa noite, já a obra do Convento de Castelo de Vide ia muito adiantada, irrompe um incêndio, que devasta tudo o que já estava feito.
O povo acorre bem depressa. As labaredas levavam tudo à sua frente, e o armazém de pólvora ficava ali bem perto. A água estava longe e difícil de carregar, pois era preciso ir buscá-la à fonte da vila, à fonte do Rossio ou ainda à fontinha de Santa Ana.
Tudo parecia perdido. Então, toda a população se voltou para a Igreja da Senhora da Alegria e, numa explosão de fé, implorou à Senhora que lhe acudisse. Como que por encanto, o incêndio extinguiu-se.
No outro dia, toda a gente se reuniu em frente da Igreja da Senhora da Alegria para rezar e agradecer tão magnânima protecção.
E todos quiseram beijar-lhe os pés, mal se atrevendo a olhar o seu rosto. De súbito, alguém que agarrava o manto de púrpura e ouro que cobre a imagem grita:
— Milagre, milagre!
Uma das pontas do manto estava queimada, porque a santa com ele havia apagado o fogo.
 Fonte: Fernanda Frazão, Passinhos de Nossa Senhora - Lendário Mariano, Apenas Livros, 2006 , p. 107-108
 Bom Dia Alentejo!