sexta-feira, 9 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, a terra de Nisa, a Lenda da Moira Parturiente de Nisa, a deusa Fortuna um dia disse e abalou

 
Havia uma mulher em Nisa que era parteira, e foi-lhe bater à porta, fora de horas, um homem. Ela levantou-se e veio à rua, onde estava o mesmo indivíduo à espera, o qual era desconhecido dela. Acompanhou o homem para fora da vila e ia muito assustada, porém não dizia nada. Chegaram a um sítio, onde estava um penedo com uma abertura à maneira de uma janela. Ele disse para a mulher:
 — Entre.
 A parteira entrou e viu uma mulher, que estava muito aflita, para ter uma criança. A parteira arranjou a mulher e arranjou a criança e depois perguntou se queriam que ela fizesse alguma coisa. Ela disse que não e pegou numa pá de carvão e encheu-lhe a abada. Foi acompanhá-la até à porta. A mulher, como não fez caso do carvão, foi deixando este pelo caminho a pouco e pouco, ficando-lhe no avental apenas, por acaso, uns três ou quatro bagos.
 Despediu-se do homem e foi-se deitar. Ao despir-se, aqueles bagos caíram no chão, sem ela dar por isso. De manhã, quando se levantou, viu que os carvões se tinham transformado em peças de ouro. Ficou muito desgostosa de não ter trazido tudo, e voltou fora a ver se achava mais peças. Porém, não achou nada.
 O homem era um moiro e a mulher que estava de parto era moira. 

Fonte: José Leite de Vasconcellos, Contos Populares e Lendas II Coimbra, por ordem da universidade, 1966, p. 744-745
Foto: http://obviousmag.org/archives/uploads/2009/09120403_obvious.pt_rochedo.jpg

Bom Dia Alentejo!

Bom Dia Alentejo, a Igreja Matriz de Tolosa, Tolosa, umas terras de uns pais franceses

 
 
Na sacristia da Igreja Matriz encontra-se uma fonte de pedra com reduzidas dimensões. Compõe-se essencialmente de um reservatório superior, uma bica e um pequeno tanque. A água que a alimenta não é nativa, mas sim transportada manualmente para o reservatório. É interessante referir que a bica está fixada na boca de uma carantonha ou carranca.
Se pensarmos que este ornamento tem origem mitológica, não faz sentido lógico o seu aparecimento num templo cristão-católico.
Porém, para esbater o paganismo evidente, surge a Cruz de Cristo esculpida em granito, encimando todo o conjunto. Tudo isto nos faz lembrar uma espécie de simbiose entre a Mitologia da Antiguidade Clássica e a força religiosa do Cristianismo.

Na Igreja Matriz há ainda outros objectos históricos dignos de registo:
1.º - Uma custódia muito antiga.
2.º - Uma salva metálica de origem alemã, no fundo da qual estão figurados em relevo Adão e Eva, vivendo no Paraíso.
3.º - Encontram-se ainda três imagens muito apreciadas pela sua antiguidade: uma delas representa São Pedro, com as tradicionais chaves do Céu fechadas na mão direita, esculpido em granito; as outras representam Santa Ana E Santa Catarina.
4.º - São ainda merecedoras de apreço as Credenciais em talha dourada, que ladeiam a Capela-Mor.

Fonte: Pequena Monografia de Tolosa, Alzira Maria F. Leitão

Bom Dia Alentejo!

Bom Dia Alentejo, Vila Boim, Coreto de Vila Boim, ao Centro tudo lhe vai

 
 

Desconhece-se quem mandou erigir, em 23 de Setembro de1894, o coreto de Vila Boim que, hoje é propriedade da Junta de Freguesia da mesma vila.
É mais um coreto com planta octogonal de 2,45m de lado e 1,50m de altura do solo. Repete-se o material do pavimento, argamassa de cimento, mas de cor vermelha.
Apresenta este coreto, uma grande variedade de materiais, que consideramos elementos decorativos com interesse: cimalha e cunhais em mármore rosa, as paredes de mosaico, a cobertura em chapa zincada lisa, com rendilhado em chapa e estrutura em ferro, gradeamento e porta, mas sem ter acesso próprio.
Situado no centro do jardim com cercadura ajardinada, ficando totalmente a descoberto, é o espaço escolhido para as festas da vila.
Encontra-se em bom estado de conservação.
Este coreto teve, em tempos, assento na Praça da Republica em Elvas.
Foto: http://fotos.sapo.pt/odiana/fotos/?uid=i3Zi0wiAZPazqPqNopzN#grande
Fonte: Coretos do Norte Alentejano / Maria de Lurdes Ferreira Serra

Bom Dia Alentejo!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, a Lenda da Princesa Encantada, Moura, terra do Sobral da Adiça, o Poço o Tesouro, uma Beleza encantada que o guarda

 
Há muitos anos atrás, havia um rei que tinha uma filha. Mas como teve de partir para junto dos seus soldados, despediu-se e recomendou à princesa que se portasse bem.
Um dia recebeu uma carta dizendo que a filha tinha arranjado um noivo na aldeia. Ficou furioso pois ele queria que a filha casasse com um rapaz de família e rico, que frequentasse a corte. Regressou ao castelo e disse à princesa que se não deixasse o rapaz, seria castigada. Porém, a rapariga não obedeceu ao pai. Então o rei chamou um dos seus guardas e mandou chamar um feiticeiro que ali morava na cidade, para que lançasse um feitiço à filha. A princesa, coitada, foi transformada numa serpente e o feiticeiro disse ao rei que a sua filha já encantada ficaria dentro de um poço a guardar um tesouro na Serra da Adiça.
E assim o encantamento só se quebrará se um homem for ao poço e der um beijo nos cabelos da cobra.
Bom Dia Alentejo!
Fonte: António Ferreira Lopes, Contos e Lendas Populares e de Transmissão Oral na Serra da Adiça, in: Arquivo de Beja, vol. XIV, serie III, 2000, p. 66
Foto: http://img.ibxk.com.br/2013/9/megacurioso/192856626006353958.jpg

 

Bom Dia Alentejo, Semana Santa, Aldeia da Mata, as Endovenças que sim, que Povo o Salvador que o festejava

 

A festa da Semana Santa era feita entre nós com muita religiosidade, e foi por isso que as Endoenças em Aldeia da Mata não eram só conhecidas nas redondezas, como também em terras distantes. Alguém afirmou que as Endoenças metiam mais gente do que as festas que se têm cá feito pelo Verão.
As cerimónias dividiam-se assim pelos dias de festa. As velas da igreja só se acendiam Sábado da Aleluia.
Quando apareciam as Aleluias, tocava-se a metrécula (matraca). Os sinos que se deixavam de ouvir em toda a Quaresma voltavam a tocar depois de aparecerem as Aleluias. À Festa das Endoenças não podia faltar uma comissão e um dos trabalhos que tinham era pedir todos os Domingos pela manhã às portas das pessoas.
As ofertas que recebiam eram fatias de pão e legumes. O dinheiro das esmolas destinava-se à festa do ano seguinte.
As opas que os festeiros levavam vestidas na procissão eram brancas com gola azul. Na Irmandade do Santíssimo iam vestidos com opas pretas, representando os doze Apóstolos.
Depois deste apontamento não posso deixar ficar sem contar o seguinte: na cerimónia da igreja quando se cantava as Trevas, fazia-se a seguinte brincadeira: quando os padres faziam barulho batendo no livro, os fiéis também faziam, só que era com pedras batendo no chão. Mas os homens e gaiatos, aproveitando esse barulho e o apagar da luz, pregavam as saias das mulheres ao chão, que nessa altura era de madeira. Como as saias eram compridas, a brincadeira resultava.

Quarta-feira de Trevas - Cantavam-se as Trevas e, em certa altura da cerimónia, as pessoas que iam munidas de uma pedra batiam com ela no chão acompanhando assim os padres que, que ao terminarem o ofício, faziam um ruído batendo no livro, ao mesmo tempo que se apagavam todas as luzes.
A festa nesse dia terminava com o sermão a propósito.

Quinta-feira - Nesse dia fazia-se a cerimónia da missa com o sermão de Lava-Pés.

Sexta-feira da Paixão - Faziam-se as cerimónias da Paixão e Morte do Senhor e, durante a procissão, cantava-se a padeirinha. De seguida, as três Marias juntavam-se perto do Senhor que está no esquife, e com Nossa Senhora das Dores ao pé e os anjinhos. Seguia-se o sermão alusivo ao enterro do Senhor.
Sábado da Aleluia - Apareciam as Aleluias às 10 horas da manhã, e tiravam-se os panos roxos que cobriam as imagens, e os sinos tocavam durante muito tempo. À noite havia uma procissão a que davam o nome de “procissão de toucinho assado”. E à noite, como de costume, havia sermão.

Domingo de Festa - Havia missa ao meio-dia, e à noite os grandes arraiais no Terreiro e no Santo António.

Segunda-feira de Páscoa - Neste dia fazia-se a festa na ermida de S. Miguel, mas com o nome de festa da Nossa Senhora dos Remédios para onde toda a gente pela manhã partia em romaria. A partir deste dia, poucos domingos passavam que não houvessem arraiais nos sítios habituais.

A esmola para o Santíssimo - As esmolas para o Santíssimo eram ofertas do povo para a ajuda da Festa das Endoenças. Para recolher essas esmolas era escolhido um homem entendido que tinha a missão  de dar a volta à nossa terra – Aldeia da Mata – nos domingos de manhã, recolhendo do povo, tigelas de feijão preto, raiado e milho.

Mas o que o povo dava mais eram as fatias de pão de trigo, de milho e centeio. À saída da missa de domingo eram leiloadas as ofertas desse dia, e o lugar do leilão era a curva da Igreja do Terreiro.
À saída do pessoal da igreja, o leiloeiro lá esperava no lugar do costume até estarem todos reunidos, para depois começar a gritar: -Quem dá mais pela esmola do Santíssimo? Assim, com este pregão repetido dezenas de vezes, e com um povo agarrado às grandes e lindas Festas das Endoenças, domingo nenhum ficaram por vender as esmolas para o Santíssimo.

Uma padeirinha de fama - Pelas festas da Semana Santa, a padeirinha que teve mais fama na nossa terra foi a Senhora Rosária Calado., mais conhecida por Rosária calada. Os antigos comentam que, quando a festa andava na rua, ouvia-se esta padeirinha cantar aos Chaparrinhos. Os antigos também comentam que às festas vinham muitos forasteiros, e quando a padeirinha cantava não se ouvia uma mosca, fazia-se um silêncio profundo.
  Fonte: A Nossa Terra, João Guerreiro da Purificação, Associação de Amizade e Terceira Idade, Aldeia da Mata, 2000

 
 
 

 
 


 
 

 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, Os Ratinhos, a Beira no Alentejo, o Desemprego e a Casa do Povo

 
  O trabalho era sobretudo sazonal, mas uma lavoura ocupava grande número de trabalhadores fixos, desde ao feitor ao abegão e sobretudo os mais variados ganadeiros, pois o gado, era uma parte importante da actividade e tinha de ser tratado durante todo o ano.
As mulheres realizavam também alguns trabalhos específicos, como as mondas (apanhar as ervas daninhas no meio das searas), a apanha da bolota e as caianças das casas.
Nos períodos de maior trabalho, como as ceifas em Junho e Julho, a apanha da azeitona em Novembro e Dezembro ou a limpeza das árvores para lenha em Janeiro, era frequente a contratação de ranchos de trabalhadores do norte, pois a mão-de-obra existente não era existente.
Picão dedica um capítulo inteiro, com a habitual descrição pitoresca, aos ratinhos, os “milhares de homens e rapazes que de propósito, vêm das Beiras (…) ceifar às terras alentejanas (…) como vantajoso que é para lavradores e serviçais. Ai das colheitas do Alentejo, se lhes faltassem os ceifeiros beirões…”
Picão – mas Picão continua – “Os ratinhos também eram contratados pelos seareiros e pelos rendeiros, não só pelos grandes proprietários…”.
O aumento demográfico que se verificou no início deste século (em Avis, a população aumentou 76,1% entre 1890 e 1940), não foi acompanhado pelo aumento do trabalho das lavouras: pelo contrário, a introdução de alguma modernização das alfaias agrícolas, como foi o caso duma debulhadora comprada nos anos 20 por Asdrúbal Braga, um lavrador de Avis, provocou a diminuição de mão-de-obra.
Esta máquina, no entanto, foi a única no concelho e era alugada aos restantes lavradores; só nos anos 60 se assistiu à introdução das ceifeiras-debulhadoras. Apesar destas alterações, os lavradores continuavam a contratar a mão-de-obra exterior, mais barata que a local. Assim, começa a assistir-se a crises de desemprego sazonais, um fenómeno que preocupou as autoridades do Estado Novo.
 
 

Cutileiro. Cutileiro, op. Cit., p. 89 “As necessidades de mão-de-obra decorrentes da exploração agrícola extensiva vieram aumentar a desigualdade resultante da distribuição da terra, dando origem a prolongados lapsos de tempo durante o ano agrícola durante os quais os trabalhadores rurais não eram necessários nas herdades. A partilha dos baldios em 1874 e o substancial aumento da população a partir dos fins do séc. XIX transformaram estas fases de desemprego periódico num grave problema social. A estes períodos deu-se o nome de crises de trabalho”.
No que diz respeito a Avis e ao distrito em que este concelho se integra, esta preocupação manifestou-se nos pedidos repetidos por obras públicas em períodos de crise. A grande preocupação das autoridades do Estado Novo com estas crises de desemprego sazonais, que ocorriam sobretudo no fim de verão, era a agitação social que a falta de trabalho podia provocar.
A solução de realizar obras públicas pelos vistos não tinha tanto a ver com o desejo de modernizar a religião, criando infra-estruturas. Isto vinha como acréscimo, mas o motivo principal era empregar os trabalhadores para evitar os “verdadeiros cadinhos de ódio de classes e luta social”, pois, como disse o Governador Civil de Évora, “a fome (era o) principal agente subversivo da classe rural”.
Quanto ao papel dos lavradores nesta questão, nota-se por parte do Governador Civil uma certa responsabilização por esta situação, uma vez que a contratação dos ranchos de trabalhadores fora do distrito agravava as crises de desemprego.
Uma das respostas do Estado Novo a este problema no sector agrícola foi estabelecer o novo Estatuto do Trabalho Nacional, instituído em 1933, o qual determina que as caixas ou instituições de previdência sejam organizadas por iniciativa dos organismos corporativos. As instituições criadas para esse fim foram as Casas do Povo, com a acção a nível das freguesias e auxiliadas na sua acção social pelos Grémios da Lavoura de cada concelho.

Fonte: Maria Antónia F. Pires de Almeida, Família e Poder no Alentejo, Elites de Avis – 1886 – 1941, 1997
Foto: http://www.prof2000.pt/users/avcultur/luisjordao/almanaque/Numero09/Imagens/MonteAlentejano01.jpg

Bom Dia Alentejo!
 
 

domingo, 4 de maio de 2014

Bom Dia Alentejo, a terra de Castelo de Vide, Lenda da Fonte dos Cães, o encanto lhe dobrou

 
 
Contava-se que uma noite vindo um rapaz de namorar, resolveu dessedentar-se. Quanto o fazia apareceu-lhe um homem que lhe disse:
“Então estás a beber as sobras da minha cozinha?”
Como o moço se mostrasse espantado logo o levou junto de uma placa de pedra por cuja argola puxou.
Apareceu uma escada de mármore por onde desceram e que dava acesso a um maravilhoso palácio.

Após a visita o estranho homem disse:
“Se quiseres ganhar todas estas riquezas só terás de vir amanhã à meia-noite. Há-de aparecer um touro e tu hás-de-lhe aparar três sortes.”
Ao outro dia o rapaz na mira de enriquecer de um momento para o outro ter-se-ia deslocado à fonte à hora combinada, onde viu o touro que investiu nele.
Aguentou a primeira e a segunda investidas, mas cheio de medo desistiu à terceira.
Então ouviu uma voz dizer:
“Ah! Ladrão! Que me dobraste o encanto!...”
 Fonte: Maria Guadalupe Alexandre, Etnografia, Linguagem e Folclore de Castelo de Vide Viseu, Junta Distrital de Portalegre, 1976
Bom Dia Alentejo!